quarta-feira, 29 de maio de 2013

Capítulo 2. “Perdendo o fôlego”

Danilo saiu em disparada pelo corredor do hospital, ávido para chegar à enfermaria. Embora tivesse recebido boas notícias no meio do caminho, ele não sossegaria até confirmar que tudo estava bem. Benício e Maria Luiza vinham logo atrás, caminhando a passos rápidos, tentando acompanhar o amigo. De longe eles avistaram Alan, que parecia estar muito à vontade, trocando risadas com uma das enfermeiras. Os dois trocaram olhares preocupados. Pela reação de Danilo, havia uma grande chance do lugar pegar fogo.
– Como está a mamãe? – Danilo perguntou ofegante, um tanto ríspido.
Alan olhou de esguelha para o irmão e voltou a conversar com a enfermeira.
– Não é possível, Alan. Você não tem noção das coisas.
Percebendo a tensão, a enfermeira saiu discretamente. Benício e Maria Luiza já estavam próximos e cumprimentaram Alan apenas com um gesto.
– Como é?
– Você não tem noção das coisas. – Danilo repetiu dando ênfase a cada palavra. – Nossa mãe poderia ter morrido e você age normalmente?
– O que você quer que eu faça?
– Pensar um pouco menos em você.
Benício colocou a mão sobre o ombro de Danilo e com os olhos pediu que ele mantivesse a calma.
– É impressão minha ou você está me culpando? – Alan perguntou, cruzando os braços. Seus olhos não esconderam o aborrecimento.
Danilo baixou a cabeça e enxugou os olhos com a palma da mão.
– Esse não foi o primeiro infarto da nossa mãe.
Alan respirou fundo e levou as duas mãos ao rosto. Perguntou a si mesmo se Danilo o perdoaria algum dia. Não aguento mais isso, lamentou. 
– Dessa vez não foi minha culpa. – falou em sua defesa.
Danilo ficou em silêncio e procurou um lugar para se sentar. Avistou duas cadeiras no final da enfermaria e caminhou em direção a elas, desabando o corpo sobre a que lhe parecia menos desconfortável. Ele colocou os cotovelos sobre os joelhos e, apoiando o rosto com as mãos, permitiu-se chorar.
Alan olhou para Maria Luíza com certo pesar e repassou-lhe algumas orientações feitas pelo médico da sua mãe. Após algumas breves indicações, ele concluiu:
– Ela está no quarto dezesseis, logo ali na frente – explicou, apontando para uma porta estreita, com uma placa de silêncio presa à maçaneta.
Maria Luíza meneou a cabeça positivamente.
– Voltarei mais tarde. Qualquer coisa liguem, por favor. – pediu Alan.
Benício o tranquilizou e se despediu com um abraço. Maria Luíza repetiu o gesto, acrescentando-lhe um beijo no rosto. Após a saída de Alan, os dois deram as mãos e compartilharam de um mesmo olhar inquieto. Embora concordassem que Alan fosse egoísta e muitas vezes irresponsável, acreditavam que Danilo o penalizava demais. Se todos têm o direito de errar, naturalmente temos o dever de não negar esse direito a alguém. Alan havia cometido um erro grave, sem dúvida alguma. Mas ele não poderia ser culpado pelo resto da vida.
– Eu vou lá fora comprar alguma coisa pra ele comer. Vê se você consegue conversar com ele. Sei lá, tenta acalmá-lo um pouco. Você é bom nisso. – falou Maria Luíza, tentando esboçar um sorriso.
Benício concordou e a beijou no rosto. Após beijá-lo também, ela saiu e despareceu pelo corredor. O rapaz soltou o ar lentamente, sentindo um aperto no coração. A instabilidade e efemeridade da vida sempre o assustavam.
Aproximando-se de Danilo, Benício puxou uma cadeira de plástico, que parecia estar ali desde a fundação do hospital, e fez um esforço para se sentir acomodado sobre ela. Danilo continuava com a cabeça repousada sobre as duas mãos. Estava em silêncio e não parecia chorar. Benício passou o braço sobre os ombros do amigo, abraçando-o na tentativa de acalentá-lo. Sem mudar de posição, Danilo falou com a voz abafada:
– Foi o terceiro infarto, Ben. Três infartos em menos de quatro anos. Como vai ser a vida dela a partir de agora?
Benício o abraçou ainda mais forte.
– A tia Juliana é uma mulher guerreira, cheia de fé. Não se desespere, meu amigo. Ela vai superar tudo isso.
Danilo levantou o rosto e reclinou-se sobre o encosto da cadeira. Sua expressão mudou de tristeza para raiva.
– Isso é coisa do Alan. Parece que ele adora irritar a nossa mãe.
Benício suspirou. Era um assunto delicado.
– Dan, você não pode continuar culpando o seu irmão. – ele falou com o máximo de suavidade que conseguiu. – O Alan errou da primeira vez e errou muito feio. Todos nós sabemos disso. Mas já está na hora de você perdoá-lo.
Danilo começou a balançar as pernas freneticamente. Aquela conversa sempre o deixava nervoso.
– Eu já falei que não consigo, Ben. O Alan sempre foi um inconsequente, um garoto mimado. Mas maltratar a nossa mãe, agir de maneira grosseira, mesmo sabendo que ela estava doente? Ele passou de todos os limites.
– Ele sabe disso. Ele já aprendeu a lição, Dan.
– Não é o que parece. – Danilo intensificou a voz. – Eu estou nesse hospital mais uma vez. Nós estamos aqui mais uma vez. Será mesmo que ele aprendeu?
Benício pousou a mão sobre o joelho de Danilo e procurou palavras verdadeiras, mas que não soassem agressivas.
– Essa mágoa está fazendo muito mal a você. Esqueça essa história, Dan. Você não é o tipo de pessoa que guarda mágoa. Não combina contigo.
De sobressalto, Danilo ficou em pé e seu rosto enrubesceu. Virando-se para Benício, ele externalizou o que havia guardado durante anos.
– Eu vi a minha mãe jogada no chão da sala, Benício, sufocando de dor e sem fôlego para chamar ajuda. Eu pensei que iria perdê-la. Era a minha mãe, cara, morrendo na minha frente. Eu nunca vou esquecer aquela noite. E eu não consigo deixar de culpa-lo. – Danilo voltou a sentar e mais uma vez apoiou a cabeça sobre as mãos. – Ele gritou com a nossa mãe por causa de uma menina idiota, Ben. Por causa de uma pirralha. Eu sei que também namoro um monte de menina fútil, mas eu jamais machucaria a minha mãe. O Danilo falou coisas horríveis e ainda levantou o braço pra ela. Se eu não estivesse lá, ele teria batido na minha mãe. E a merda teria sido completa... – A voz de Danilo mudou e ele não conteve o choro. – Não vou perdoá-lo, Ben. Eu não consigo fazer isso.
Benício escolheu ficar calado. De maneira involuntária, ele passou a mão sobre o cabelo de Danilo e repetiu o gesto diversas vezes. Absorvido pela emoção do momento, Benício nem se deu conta do quanto havia esperado por tocá-lo daquela maneira. Já não bastava o amor fraternal de Danilo, nem mesmo a cumplicidade que havia entre eles. Ele queria mais. Benício o amava em dobro a cada dia, com uma força voraz e incontrolável. Ele esperava com grande expectativa o dia em que Danilo seria seu. Ele era seu amor mais antigo, o prazer mais cobiçado, o toque mais esperado. Acima de tudo, Danilo era a dor mais pulsante, que se confundia com alegria e se transformava em paixão.
Danilo virou o rosto e olhou diretamente para os olhos de Benício, esboçando um leve sorriso. Um frio percorreu o corpo de Benício, que não conseguiu retribuir o olhar, nem mesmo o sorriso. Estaria louco ou Danilo havia correspondido ao carinho? Ele está abalado. Não posso misturar as coisas, concluiu para si mesmo. Mas Danilo continuava a encará-lo, sem perder o sorriso tranquilo. Benício não conseguia acreditar. Também não conseguiu evitar que sua mão abandonasse os cabelos de Danilo e caminhasse em direção ao seu rosto. Ele acariciou delicadamente a face do amigo, que parecia não estar minimamente incomodado. Benício estava com o coração acelerado e as pernas trêmulas. Sua respiração ficou ofegante e sua boca estava seca. Danilo estava ali, bem próximo e seus olhos pareciam pedir alento e consolo. Não houve palavras, apenas o momento. Benício sofreu ao pensar que logo iria acabar. Sofreu porque já não se imaginava sem a proximidade daquele olhar. Sofreu e sofreu um pouco mais. Era muita felicidade para um instante apenas.
De longe, Maria Luíza os observava. O toque. O olhar. Duas pessoas que ela amava. Uma cena que ela não esperava assistir. Benício e Danilo? As interrogações pareciam transbordar, escorrendo pelo seu corpo inteiro. Ela permaneceu imóvel. Não conseguia se mexer. Sentiu-se invadida por um sentimento diferente e indescritível. Não era dor, nem era tristeza. Era uma sensação desconhecida. Aquele momento durou alguns infindos segundos, até que ela conseguiu virar o corpo e sair pelo mesmo caminho que havia feito. Caminhou pelo longo corredor, passou pela recepção e logo se viu fora do hospital. Sentia-se sem fôlego. O ar parecia não chegar aos seus pulmões. O sentimento continuava indecifrável, no entanto latente. Quando a primeira lágrima escorreu, Maria Luíza não desejou conter o pranto. Então chorou.

A alguns metros dali, alguém a admirava com olhos preocupados e com o coração compassivo. Pensou em sair ao encontro dela, oferecer-lhe consolo, mas optou por entrar no carro e seguir o seu caminho. Por que procurar motivos para sofrer? Maria Luíza nunca seria sua.

*****

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Capítulo 1. "Danilo, Malu e Benício".

Ela estava deitada no chão e com a cabeça recostada sobre as costas de Danilo, enquanto lia alguns versos de Mário Quintana. Seus cabelos, que estavam mais claros e longos, deslizavam pelas pernas do rapaz, que repousava a cabeça sobre os próprios braços. Eles se conheciam desde os cinco anos de idade, quando os pais de Maria Luíza, após o primeiro divórcio, decidiram casar novamente e morar em outro estado. Dois anos depois, a menina viu seu pai sair de casa novamente, quase entendendo que o veria pela última vez. Foi nesse mesmo dia que Danilo surgiu na sua vida, após um encontro nada convencional.
– Você não imagina do que eu lembrei agora. – Danilo falou de supetão em tom de gracejo, virando o rosto para trás o máximo que pôde.
Maria Luíza interrompeu a leitura e falou energeticamente:
– Não quero saber das tuas aventuras sexuais, safado.
Danilo murmurou alguma coisa e virou o corpo de maneira brusca, deixando Maria Luíza escorregar propositalmente.
– Sua louca, não tem nada a ver com isso. – retrucou, com um leve sorriso.
Maria Luiza levantou do chão rapidamente e deu um soco no ombro do amigo.
– Quase você me machuca, seu rinoceronte. Você é um agressor. Estúpido...
Danilo riu.
– Chega, mulher. Deixa eu falar.
– Fala, Danilo. Fala logo.
Maria Luíza mexia a cabeça de um lado para outro, alongando o pescoço. Ficar deitada com a cabeça sobre as costas de Danilo era um hábito não muito confortável. O rapaz era grande o suficiente pra causar um leve torcicolo. Na verdade, Maria Luiza sempre acabava arrependida da brincadeira.
– Lembrei do dia que a gente se conheceu. – Danilo disse sorridente. – Nesse mês faz 19 anos que a gente se conhece.
Ela esboçou um largo sorriso.
– Nossa, Dan! É verdade.
– Faz 19 anos que você me jogou do escorregador do parquinho, Malu.
Maria Luíza arregalou os olhos e berrou no seu melhor agudo:
– Eu te empurrei, Danilo? Eu?
– E agora me deixou surdo. – Falou Danilo, levando as duas mãos em direção às orelhas. – Escandalosa! Você tentou me matar quando a gente tinha cinco anos, Maria Luíza. Nem começa a fingir.
– Ai, seu sínico. Foi você que puxou o meu cabelo e depois me empurrou daquele escorregador. – Ela levantou a barra da calça e mostrou uma pequena cicatriz no tornozelo. – E eu posso provar com isso aqui.
Danilo chegou bem perto da cicatriz e semicerrou os olhos, fingindo que não conseguia enxergar. Ele meneou a cabeça negativamente e apontou para o próprio joelho.
– Isso aqui prova que fui vítima, Malu.
– Não, querido. Essa cicatriz aí prova que você sempre foi um pentelho.
– Olha, que barbaridade. – Ele falou em tom de decepção, bastante dramático.
– Nem vem! Vou caiu da árvore, Danilo. Foi querer dar um de esperto, achando que estava no melhor esconderijo de todos, resultado... Isso aí! E ainda caiu em cima do Pirulito. Coitado.
Danilo riu alto e Maria Luíza o acompanhou na gargalhada. Os dois ficaram encostados no sofá e ali perderam as horas, trocando lembranças e rindo aos montes. Maria Luíza era ótima para lembrar todos os menores e aparentemente supérfluos detalhes, enquanto Danilo tentava distorcer as histórias que não o agradavam. Em algum momento os dois choraram. Ambos conheciam bem as suas dores. Após 19 anos de amizade, eles também haviam colecionado problemas e crises. Situações difíceis, que a vida tinha reservado sem pedir permissão. Surpresas que deixaram cicatrizes interiores. Mas naquele momento, não houve espaço para lamúrias.
Estamos juntos há quase duas décadas, Danilo pensou enquanto observava Maria Luíza mexer os braços freneticamente e falar sem parar. Malu era uma menina linda sem fazer esforço algum. E naquele dia, ela parecia estonteante, resplandecente. Sempre que sorria, Maria Luíza ficava com os olhos bem fechadinhos, pequenininhos. Danilo adorava aquilo. Adorava também os seus cabelos castanhos ondulados, que cheiravam a camomila com leite. Sem falar em seus dentes brancos e lábios rosados, que pareciam pedir um beijo.
Danilo apertou os olhos e colocou a mão sobre o rosto. Que pensamento era aquele? Malu era sua amiga, sua protegida, a menina dos seus olhos. Não havia atração entre eles. Não era paixão. Era amor. Puramente. E se algo estivesse mudando, a situação se tornaria inconsistente. Danilo sabia que suas chances tinham ficado no passado.
– Você está bem? – perguntou Maria Luíza, interrompendo os pensamentos de Danilo. – Você ficou estranho agora. Lembrou de alguma coisa?
Ele ia inventar uma mentira qualquer quando, do lado de fora da casa, uma buzina mudou o rumo da conversa.
– Deve ser o Pirulito – ele sugeriu.
– Acho que sim.
Maria Luíza caminhou em direção a porta e, voltando-se para Danilo, contestou.
– E não chama ele de Pirulito. Você sabe que ele odeia.                           
Danilo fez uma careta, resmungou alguma baixaria e pegou uma toalha que estava jogada sobre o sofá.
– Vou tomar um banho – falou enquanto fechava a porta do banheiro. Em seguida falou quase gritando, em tom de advertência: – Mas se controlem vocês dois. Não deixa o Benício querer usar o pirulito dele.
Maria Luíza, que fingiu não ouvir o comentário libidinoso de Danilo, recebeu o namorado com um beijo rápido.
– Eu trouxe sushi. – Benício mostrou a sacola que estava segurando.
– Que bom que você adivinhou, amor.                                                                                               
Ele sempre adivinhava. Benício era o tipo de namorado atencioso, que notava detalhes pequenos e percebia as coisas no ar. Era bonito, com um olhar marcante. Seu corpo era magro e bem torneado, sem a ajuda da musculação. Benício adorava tênis, corrida e treinos com corda, atividades que praticava semanalmente. Era um jovem saudável e bem quisto por todos. Não colecionava amigos, mas zelava pelos seus. Benício e Malu namoravam há menos de três meses, embora tenham se conhecido quando crianças, alguns anos depois do incidente envolvendo Danilo e o escorregador. Desde então, os três não se largaram mais. Tratavam-se como irmãos, o que tornou o namoro entre Malu e Benício uma surpresa realmente inesperada. Para alguns, quase incestuosa.
Maria Luíza o beijou novamente e pegou a sacola de sua mão, levando-a para a cozinha. Benício sorriu e deu uma olhada ao redor, estranhando o silêncio do lugar.
– Pensei que o Danilo estivesse aqui.
Maria Luíza respondeu da cozinha, intensificando a voz:
– Tá tomando banho.
– É um favor que ele nos faz.
Benício sentou no sofá e colocou os pés sobre a mesa de centro. Maria Luíza se aproximou e o abraçou por cima dos ombros.
– Você não sabe o que a Danilo tentou hoje.
– Se foi te agarrar, ele vai morrer.
– E quem vai matar?
– Eu, claro.
Benício riu de si mesmo. Ele mal conseguia matar baratas. Sentia pena. Ou era nojo?
– Ele tentou me culpar por aquela cicatriz que ele tem no joelho, acredita? – contou Malu ranzinza. – E ainda disse que eu tinha empurrado ele do escorregador.
Benício virou o corpo no sofá, ficando de frente para Maria Luíza.
– Olha que sacanagem! – vociferou. – Como se eu não lembrasse que ele caiu em cima de mim.
Maria Luíza concordou com a cabeça e sorriu.
– Eu sei. Naquele tempo você ainda era o Pirulito. – ela falou, segurando uma gargalhada. – Um pirulito com braços e pernas.
Benício fez uma careta e cruzou os braços.
– Mas agora você está um pedaço de mau caminho.
Maria Luíza deu a volta no sofá, sentou no colo de Benício e o beijou.
Danilo, que acabara de sair do banheiro, passou pela sala e, vendo os dois amigos juntos, tentou disfarçar o ciúme com um gracejo.
– Procurem um quarto, por favor. Depois eu que sou o safado, dona Maria Luíza?
Maria Luíza sorriu para Benício e o beijou rapidamente no rosto. Então, se levantou e saiu em direção a cozinha, esbarrando propositalmente em Danilo, que balançava a cabeça de um lado para outro, como se estivesse a recriminando.
– Me poupa tá, garoto. Papai foi embora faz tempo.
 Danilo riu e se sentou ao lado de Benício.
– Ainda não acredito que vocês estão namorando.
– Acho que nem eu acredito. – respondeu Benício francamente. – E o seu rolo com a Vitória?
Danilo entortou a boca e começou a puxar a própria orelha. Benício sabia que aquele gesto sempre significava a mesma coisa.
– Eu não acredito, Dan.
– Eu sei que Vitória é uma menina incrível. – Danilo tentou se explicar. – Mas você sabe que ela quer namorar e eu...
– Quer ficar na putaria pra sempre.
– É. Mais ou menos isso.
– Uma hora você vai ter que se ajeitar, meu amigo.
– Eu sei disso. – Danilo soltou o ar demoradamente e se levantou. – Eu vou me trocar.
Ele não estava com disposição, nem com vontade de fingir que tudo estava normal. Não queria mentir para Benício. Nunca havia escondido nada dele. Mas agora, o seu melhor amigo era o namorado da sua melhor amiga. Algumas coisas teriam que mudar e isso já estava acontecendo.
Benício observou o amigo caminhar e desaparecer no corredor. Danilo estava só de toalha, exibindo seu corpo perfeito. Para alguns, Danilo estava perdendo as formas definidas e ganhando algumas gordurinhas mais visíveis, mas para Benício ele estava mais lindo do que nunca. Benício colocou os dois braços sobre a cabeça e deixou o corpo cair sobre o sofá. Uma onda de medo o invadiu, trazendo uma porção de questionamentos. Ele pensou em Malu, a sua melhor amiga e também sua namorada. Ele a amava demais para permitir que ela sofresse. Onde eu estava com a cabeça?, pensou em silêncio. Benício namorava Manu, mas a sua paixão era Danilo, seu melhor amigo. Ele sentiu vergonha de si mesmo.
Benício levantou do sofá e caminhou até a cozinha, sentindo as mãos frias e trêmulas. Ele teria coragem suficiente para contar a verdade?
– Você quer um copo de suco? – perguntou Maria Luíza ao vê-lo passar pela porta. – Acabei de fazer.
Benício meneou a cabeça pra cima e pra baixo. Ele puxou uma cadeira e sentou à mesa. Não tinha pra onde correr. Ele precisava encarar os fatos.
Maria Luíza entregou o copo de suco e sentou ao lado dele.
– Está tudo bem? – perguntou, percebendo que o rosto dele estava pálido.
– Faz tempo que eu quero te contar uma coisa. – ele começou. – Mas eu nunca tive coragem. Somos amigos, eu sei. Mesmo assim...
– Somos mais do que amigos, Ben. – ela o interrompeu. – Somos irmãos. O namoro não mudou e nunca vai mudar isso. Você pode me contar qualquer coisa.
Benício aquiesceu.
– É sobre o Danilo – ele falou com a voz hesitante.
Mas antes que ele pudesse continuar, Danilo entrou na cozinha com os olhos vermelhos e com a respiração ofegante. Parecia que tinha corrido por horas.
– O que foi, Dan? – perguntou Malu.
– A minha mãe. – ele falou segurando o choro. – Ela sofreu um acidente e está muito mal.
Alguns minutos depois, os três saíram imediatamente rumo ao hospital.