sábado, 15 de junho de 2013

Capítulo 4. "Algo teria acontecido?"

Passar a noite em uma enfermaria, abarrotada de cardíacos, hipertensos ou diabéticos, parecia uma pequena dose do inferno. Os sons de gemidos e pigarros, acompanhado de esporádicos espasmos e ataques, não deixavam Danilo pregar o olho. Sentado em uma cadeira desconfortável, ele observava Jaqueline, que embora dormisse tranquilamente, não estava em condições superiores aos demais pacientes. Sua mãe convivia diariamente com a possibilidade de, após um segundo qualquer, seu coração não mais bater. Sem dúvida, ela não era a única. Todos os dias, milhares de pessoas com problemas cardiovasculares chegavam aos hospitais. Muitos destes não voltavam para casa.
Danilo afastou os pensamentos negativos e tentou encontrar uma posição que lhe agradasse. Desistiu logo em seguida. Olhou para o relógio. 2h10. O remédio de Jaqueline estava dez minutos atrasado. Danilo murmurou alguma coisa e saiu em direção ao balcão da enfermaria. No corredor, encontrou a enfermeira plantonista que, para seu espanto, logo pediu desculpas pelo atraso e se demonstrou sinceramente solícita. As madrugadas em hospitais públicos não costumavam ser regradas a gentilezas e boa-vontade. Uma atitude diligente, portanto, não passaria despercebida. A beleza da jovem enfermeira também surpreendeu Danilo, que após ler o nome bordado no jaleco, agradeceu-a de modo gentil. Mariana respondeu com um leve sorriso e entrou no quarto, empurrando um carrinho cheio de seringas, agulhas e outros equipamentos de trabalho.
Danilo respirou fundo e preferiu não acompanha-la. Decidiu deixar sua mãe aos cuidados de Mariana. Estava cansado e queria passar alguns minutos sem ter que ouvir os tantos murmúrios que vinham dos leitos. Ele caminhou até o final da enfermaria e se sentou na mesma cadeira que estivera horas atrás, na companhia de Benício. Pensou no velho amigo e isso lhe trouxe tranquilidade. Ao passar a mão no cabelo, ele sentiu mais uma vez o toque de Benício, consolando-o, tratando-o, de um jeito que ele fazia muito bem. A lembrança lhe pareceu agradável. Benício. Quem mais lhe fazia tão bem quanto ele? Danilo sorriu. Sentiu-se com dezesseis anos novamente, em certa noite, na varanda da sua casa.
– Por que você está aqui fora? – Danilo perguntou.
Benício, que estava sentado na escada, olhou para ele e deu de ombros.
– Você sabe que eu não gosto dessa brincadeira.
– Ben, você é o único que não gosta. É divertido.
– Eu não acho divertido. – assegurou. – Ficar vendo uma garrafa rodar pra depois beijar alguém? Ah, não! Isso parece desespero.
– Você é muito certinho, Benício.
– Você que pensa.
Danilo se sentou ao lado dele e cruzou os braços, fazendo cara de surpresa. Esperou Benício falar alguma coisa.
– Você e Malu pensam que sabem tudo sobre mim.
– E não sabemos?
– Não tudo.
– Então diz aí. Surpreenda! O que eu não sei sobre você?
Danilo duvidava que houvesse algo que ele não soubesse sobre o amigo. Benício costumava ser muito previsível, mesmo quando tentava surpreender. Se havia algum segredo, certamente ele fazia um esforço enorme para não deixar revelar. A sinceridade de Benício era uma admirável raridade.
– Ninguém é uma coisa apenas, Danilo.
– O que você está dizendo?
– Estou dizendo que não sou todo certinho, oras.
– Não é o que parece. Que loucura você já fez? – Danilo o desafiou.
Benício colocou os cotovelos sobre a perna e apoiou o queixo com a mão.
– Não fiz. Mas eu gostaria de fazer. – ele falou timidamente.
Danilo ficou curioso.
– O que é?
– Não vou falar.
– É safadeza?
– Não é.
– Então fala, Benício.
– Não quero falar.
– É safadeza!
Danilo riu e, com os ombros, deu alguns empurrõezinhos em Benício.
– Por que você só pensa em putaria, Dan?
– Porque é bom.
Benício suspirou e virou o rosto. Danilo era dois anos mais velho do que ele e algumas décadas mais experiente. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo até que Danilo resolveu arriscar:
– Quem é o cara que você gosta? – ele falou quase sussurrando.
Benício engoliu em seco. Como ela sabe disso? Não esperava pela pergunta. Obviamente, não sabia o que responder.
– Somos amigos, Ben. Não precisa ficar sem jeito.
– Não estou sem jeito.
Danilo colocou o braço sobre os ombros do amigo. O gesto deixou Benício constrangido.
– Se alguém chegar e nos ver aqui sozinhos... Sei lá, pode ficar estranho. – ele falou, tropeçando nas palavras.
– Eu não acho estranho. – retrucou Danilo. – Você é meu amigo. E não me importo com a opinião dos outros.
– Eu não sou desencanado como você, Dan.
– Eu sei.
Danilo olhou para Benício e esboçou um sorriso. Seu amigo era dois anos mais novo do que ele e algumas décadas mais tímido. E como seus olhos permaneciam sobre ele, Danilo sabia que Benício estava à beira de um colapso.
– Vamos entrar, né?
– Por quê? – Danilo perguntou um tanto malicioso.
Benício sentiu a mão de Danilo sobre a sua. O corpo estremeceu. O toque durou apenas alguns segundos, mas para ele pareceu uma semana inteira.
– Eu vou entrar. – Benício falou, levantando-se rapidamente e ofegante. Teve medo. Não quis  saber o que aconteceria em seguida. Sentiu-se covarde, mas não queria arriscar. Não queria sofrer. Após quase tropeçar nos degraus da escada, ele passou pela porta apressado. 
                      
Danilo sorriu mais uma vez, com o mesmo sorriso daquela noite. Seu sentimento por Benício era fraternal e simultaneamente passional. Amava-o como irmão acima de qualquer outra coisa, mas não escondia de si mesmo que havia outros sentimentos. Embora não conseguisse compreender, tais emoções não lhe confundiam, nem mesmo o incomodavam. Gostava de estar com ele e rir de suas trapalhadas. Havia uma liberdade mútua que os mantinha conectados, sem necessidade de omissões ou formalidades. Embora Benício guardasse alguns segredos, Danilo sabia que eles se conheciam muito bem. Eram parceiros, amigos de verdade. Se havia algo além de amizade – e não restava dúvida de que sim – isso apenas fortalecia um sentimento que era bonito, algo que transcendia o físico e alcançava o campo invisível da alma.
Alguns ruídos fizeram Danilo voltar para a sua realidade. Eram passos apressados de alguns enfermeiros. Ele sentiu o coração acelerar e os joelhos começaram a tremer. A movimentação estava acontecendo no quarto dezesseis. A enfermeira Mariana saiu do quarto e caminhou ao encontro dele. O desespero foi inevitável. Mamãe! Danilo correu.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Capítulo 3. "Então somos três?"

Maria Luíza fechou os olhos e, de um instante para outro, a voz de Benício desapareceu, dando lugar ao som de Jason Mraz. Exuberante em seu vestido vermelho, ela examinava a maquiagem e arrumava algumas mechas de cabelo. O delineador acentuava seus olhos castanhos, garantindo-lhe uma força atraente, quase intimidadora. E o toque suave do gloss em seus lábios, deixava-os discretamente sensuais. Ela sorriu. Embora preferisse o jeans, não pôde e nem quis negar que estava bonita. Quando a música Butterfly começou, Maria Luíza soltou o corpo e deixou se envolver pelo ritmo. Mexendo os ombros e os quadris, ela dançava em frente ao espelho. Maria Luíza era naturalmente musical e, após a influência de Benício, apaixonou-se pelo jazz. Quando estava em seu quarto, era impossível haver silêncio. Era impossível não haver música.
Três toques consecutivos na porta do quarto a interromperam. Após alguns segundos de silêncio, vieram outros três toques igualmente sucessivos. Maria Luíza reconheceu o código e permitiu a entrada de Danilo, que imediatamente correspondeu. Ao olhar para a amiga, ele não conseguiu esconder o deslumbre. Perdeu as palavras. Maria Luíza sorriu vaidosa e examinou-se no espelho mais uma vez.
– Estou tão bonita assim?
– Completamente. – ele respondeu boquiaberto.
Já havia alguns dias que um sentimento novo começava a nascer em Danilo. Um sentimento diferente de todos os outros que ele conhecia.
– Vou sair com o Ben, acredita? – Maria Luíza falou um pouco apreensiva. – Eu juro que não esperava por isso.
Ninguém esperava, especialmente ele. Benício e Malu? Isso parecia irreal, uma fantasia ou mesmo uma brincadeira de mau gosto. Afinal, eles eram três. Seria impossível imaginá-los de outra maneira. Isso não poderia mudar.
Danilo permaneceu em silêncio, com os olhos fitos em Maria Luíza. Ocupada com os últimos detalhes do vestuário, ela não percebeu o olhar ansioso do amigo. Nem mesmo ele conseguia entender, mas seu coração estava prestes a saltar pela boca. Estaria apaixonado pela sua melhor amiga ou simplesmente estava com medo de perder dois amores?
Foi Jaqueline que, entrando no quarto, libertou-o dos próprios pensamentos.
– O Benício está na sala. – avisou a mãe de Maria Luíza, que fez questão de enfatizar o tom de surpresa.
Maria Luíza olhou para Danilo, fazendo-o um pedido silencioso. Ele meneou a cabeça positivamente, fez cara de poucos amigos e saiu ao encontro de Benício. Só que me faltava, ele pensou. Agora eu virei o irmão mais novo.
No quarto, Jaqueline se aproximou da filha e falou quase cochichando.
– Eu não acredito que você e Benício estão namorando.
– Nós não estamos namorando, mãe. – falou Maria Luíza, enquanto colocava os brincos. – E você fala isso porque prefere o Danilo.
Jaqueline suspirou um pouco aliviada. Imaginar Maria Luíza namorando Benício não lhe parecia agradável. Ela adorava o rapaz, mas Danilo realmente era seu preferido. Admirava-o pela alegria e jovialidade que não lhe abandonavam. Sem dúvida, Benício era mais sensível e carinhoso. E mais prestativo também. No entanto, era Danilo quem lhe passava mais segurança e firmeza. Via-o como um jovem certo de si mesmo, sem questões mal resolvidas. Quanto a Benício, parecia que sempre havia uma nuvem de interrogações sobre a sua cabeça. E ela sabia que algo novo estava acontecendo. Os três sempre andavam juntos e agarrados. Um encontro a dois, entre sua filha e Benício, significava muita coisa. Ela suspirou mais uma vez. Por que não o Danilo, pensava Jaqueline, se além de tudo ele é lindo?
– Eu não entendo porque você não namora o Danilo. – confessou Jaqueline.
Maria Luíza não respondeu.
– Você ama esse menino, Malu.
– Sim, eu amo. Mas é amor de amigo.
– E ele te ama.
– Sim, eu sei, mãe. Mas ele também me ama como amiga.
– Você sabe que eu tenho minhas dúvidas.
– Sobre o amor dele por mim?
– Não. Sobre o amor de vocês dois.
Jaqueline percebeu no olhar de Maria Luíza que nela também havia incertezas. Mas para não atrapalhar a noite da filha, preferiu encerrar a conversa com um elogio. Após beijá-la no rosto, Jaqueline saiu do quarto.
O amor de vocês dois, pensou Maria Luíza. Agora não tinha mais jeito. Indubitavelmente, a frase voltaria a sua mente durante toda a noite. Os sentimentos guardados também voltariam com rapidez, junto com as muitas lembranças secretas. Sentiu-se arrebatada por emoções antigas, cheias de pureza misturada com malícia. Viu a si mesma criança e adolescente, com dois braços entrelaçados aos seus. Maria Luíza fazia parte de três corações, três sorrisos, três olhares. Não houve tempo para ser dois. Eles sempre foram três.

Quando Me and Mr. Jones começou a tocar na rádio do carro, Maria Luíza percebeu que já não estava no quarto, nem vestida como naquela noite. Seus pensamentos haviam regressado para um momento inesquecível, mas a realidade a trouxe de volta, para uma noite completamente diferente. Seu primeiro encontro com Benício havia acontecido quatro meses atrás, cheio de boas surpresas. E agora ele estava ali, ao seu lado, segurando-lhe a mão. Seu namorado. Alguém que, em breves segundos, tornou-se um enigma. Benício e Danilo? Seus dois amores? Maria Luíza se lembrou do olhar entre os dois. Lembrou-se também do toque carinhoso de Benício, acariciando a face de Danilo. Sentiu um arrepio. Náusea. Não era raiva. Era medo, misturado com dúvida. Sentia-se traída, talvez, mas não magoada. Então, eles eram três? Três amores tão revelados quanto secretos? Ela não conseguia organizar as ideias. Poderia estar enganada, confundindo as coisas. Maria Luíza desejou acreditar nisso. Mas não parecia haver dúvida no olhar de Benício. Não havia medo. Só havia amor. E ela estava bem no meio disso tudo. A ideia lhe causou mal estar. Abandonando a mão de Benício, ela abriu a porta do carro.
– Já está tarde e estou cansada.
Maria Luíza ia sair do carro quando Benício a segurou pelo braço.
– Você está bem? – ele perguntou preocupado.
– Eu não poderia estar bem. – ela falou insipidamente.
Benício reconheceu aquele tom. Maria Luíza nunca se exaltava com ele. Não era preciso. Ambos conheciam bem as suas emoções.
– Você tem razão. A situação é complicada.
– Não estou falando sobre a doença da tia Juliana.
– Eu sei que não. – confessou Benício. – Eu vi quando você saiu da enfermaria. Você me viu com o Danilo.
Maria Luíza foi pega de surpresa. Algumas palavras quase lhe escaparam dos lábios, mas ela se controlou.
– Você não precisa medir as palavras comigo. – falou Benício, como se estivesse adivinhando os pensamentos dela.
Maria Luíza fechou a porta do carro novamente e viu o próprio rosto refletido no retrovisor. Sentiu-se feia. Inferior. Desprezada, talvez.  
– Por que você não me disse? – ela perguntou, sem olhar para Benício. Seus olhos estavam marejados, mas ela não queria chorar.
– Eu tentei te dizer.
– Quando?
– Hoje, quando estávamos na cozinha.
– Hoje? – ela exclamou sem gritar, olhando novamente para ele. – Pelo amor de Deus, Benício. Já se passaram quatro meses. Por que você não me contou antes?
Benício emudeceu.
– O que você pensou? – ela perguntou rispidamente. – Achou que poderia continuar fingindo e me enganando?
– Claro que não, Malu. Você me conhece. – Ele falou com a voz hesitante.
– Você estava me usando, Benício.
– Eu não estava te usando.
– Claro que estava. Você desfilava comigo pra evitar comentários.
– Não diz disso, por favor.
– Não se faz de vítima, Benício.
Ele permaneceu calado. Não poderia chorar. Seria pior.
– Eu não reconheço você. – afirmou Maria Luíza, levantando-se do banco mais uma vez. Então usou toda sua força para fechar a porta do carro.
Benício saiu ao encontro dela, mas escolheu não se aproximar demais. Manteve uma distância segura.
– Eu nunca usaria você. Não foi por isso que começamos a namorar.
Maria Luíza fingiu não ouvir, enquanto procurava suas chaves na bolsa.
– Não foge de mim, Malu. – Benício pediu. Na verdade, suplicou.
– Chega por hoje. – ela falou sem olhar para ele.
Benício se aproximou e pousou a duas mãos sobre os ombros de Maria Luíza.
– Eu deveria ter te contado antes, eu sei.
– Não contou porque é covarde.
Maria Luíza virou bruscamente, encostando-se contra o portão.
– Você é um covarde, Ben. – ela continuou. – Não respeitou a mim, muito menos a você mesmo. Não zelou pelos nossos sentimentos. Não conseguiu superar o seu próprio preconceito.
– Preconceito?
– E não é preconceito?
– Claro que não. Foi uma tentativa, Malu. Eu só queria que acontecesse algo especial entre a gente.
– Nós já tínhamos algo especial.
Maria Luíza abriu o portão e entrou na casa a passos rápidos. Após fechá-lo, Benício a seguiu.
– Você não entende mesmo.
– Claro que eu entendo. Você quis se esconder atrás de mim.
Ela subiu as escadas, em direção ao quarto. Benício continuou a segui-la.
Os dois entraram no quarto.
– Você estava tentando gostar de mulher, Benício. E adivinha quem você escolheu pra te converter?
– Você está exagerando, Malu.
 Maria Luíza abriu a porta do guarda-roupa, mesmo sem saber o que estava procurando.
– Estou nada! – ela gritou, virando-se para ele. – Você nunca me olhou daquele jeito, Benício. Você nunca me tocou daquele jeito. Eu pude sentir a sua respiração ofegante. – Maria Luíza pensou nas próprias palavras e então continuou: – Não sou eu quem você deseja. Você morre de tesão pelo Danilo.
– Você está sendo muito dramática.
– E você está sendo sínico.
Maria Luíza tirou uma toalha limpa do guarda-roupa e a colocou sobre os ombros.
– Vamos encerrar essa conversa. Estou cansada.
Benício estava disposto a continuar. Era assim que eles resolviam as coisas.
– Foi apenas um olhar, Malu.
– Não me diz isso, pelo amor de Deus. Eu te conheço há um milhão de anos, Benício. Não vem querer mentir, achando que eu vou acreditar. Eu sei o que eu vi. Mesmo de longe eu pude sentir o que rolou entre vocês dois. Era tesão sim, meu querido. Atração, desejo, excitação, libido, luxúria... Eu posso passar a noite inteira descrevendo o que eu vi.
– Agora eu me senti um cão no cio. Um tarado descontrolado.
– Deixa de ser criança, Ben. Não fica fingindo que você não sente essas coisas.
– Eu não quero sentir. Não por ele.
– Mas você sente! – Maria Luíza explodiu. – Você vai passar o resto da vida fingindo e escondendo esse sentimento? Quantas outras meninas você vai usar? Quanto tempo mais você vai ficar fugindo da realidade? Você tem 22 anos, cara. Já deveria ter percebido que você é assim. – Ela diminuiu o tom. – Não mente mais pra você, Benício.
Ele desviou o olhar. Cruzou os braços. Segurou o choro.
– No fundo todos nós gostaríamos de ser diferentes.
– Todos nós quem, Ben?
Benício ficou em silêncio. Parecia impossível responder.
– Fala, Ben. – insistiu Maria Luíza, com voz suave. – Diz o que você é.
Ele baixou a cabeça e, após alguns segundos, falou com voz abafada:
– Gay.
Maria Luíza não pôde negar o peso de tal afirmação. Estava surpresa. Espantada. Mas isso não importava. Carinhosamente, ela posou as mãos sobre os braços dele.
– Não se envergonhe. Não existe motivo pra isso. Você é gay, mas também é um homem maravilhoso, que tem qualidades incríveis. Veja-se como um todo, meu amigo. A sexualidade é apenas uma parte de você. É um detalhe, Ben.
– É um detalhe que já me trouxe muita dor, Malu.
Maria Luíza respirou fundo. Lamentou não ter sofrido junto com ele.
Benício deu alguns passos para trás e se sentou na cama. Seus lábios estavam trêmulos e seus olhos cheios d’água. Maria Luíza se esforçou para não demonstrar fraqueza, embora em seu coração desejasse chorar com ele.
– Você precisa aceitar tudo isso. – ela falou de maneira branda, mas sem perder o vigor.
Benício baixou a cabeça e enxugou os olhos com a palma da mão.
– Parece fácil quando você fala.
Maria Luíza sentou ao lado dele.
– Eu sei que não é fácil. Mas é simples.
– Eu queria que fosse diferente, Malu.
– Mas não é. Você escolheu isso?
– Claro que não.
– Então aceite.
Benício olhava para os próprios pés.
Maria Luíza segurou a mão do amigo, levando-a em direção aos lábios para lhe dar um beijo.
– Você sabe que eu te amo, menino bobo.
Benício sorriu, mas não conseguiu olhar para ela.
– A gente sempre vai se amar.
Maria Luíza colocou a mão sobre face de Benício, pedindo-lhe que olhasse pra ela. Ao virar o rosto, ele foi surpreendido com um beijo. Aqueles lábios lhe pareciam desconhecidos. Ela jamais havia o beijado de tal maneira. Embora agradável, o beijo o deixou assustado. Benício afastou o rosto.
– Vamos continuar a conversa amanhã? – ele perguntou sem jeito.
Maria Luíza concordou com a cabeça. Os dois se levantaram e, de mãos dadas, caminharam em direção à porta. Foi Benício quem abriu a porta, mas voltando-se para Maria Luíza a abraçou com intensidade. As mãos dela caminhavam pelas costas e pescoço de Benício, que correspondia de maneira igual. Os dois compartilhavam de um mesmo desejo.
Benício a beijou, mas logo afastou o rosto. Olhou para sua amiga. Linda. Se pudesse escolher, não queria estar com mais ninguém. Ele a beijou mais uma vez e, encostando-a contra a porta, virou o trinco da maçaneta. Beijaram-se por longos minutos, enquanto seus braços e pernas entrelaçavam-se com força e muito calor.  
Bastou um instante para que os dois estivessem despidos.
Naquela noite, amaram-se pela primeira vez.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Capítulo 2. “Perdendo o fôlego”

Danilo saiu em disparada pelo corredor do hospital, ávido para chegar à enfermaria. Embora tivesse recebido boas notícias no meio do caminho, ele não sossegaria até confirmar que tudo estava bem. Benício e Maria Luiza vinham logo atrás, caminhando a passos rápidos, tentando acompanhar o amigo. De longe eles avistaram Alan, que parecia estar muito à vontade, trocando risadas com uma das enfermeiras. Os dois trocaram olhares preocupados. Pela reação de Danilo, havia uma grande chance do lugar pegar fogo.
– Como está a mamãe? – Danilo perguntou ofegante, um tanto ríspido.
Alan olhou de esguelha para o irmão e voltou a conversar com a enfermeira.
– Não é possível, Alan. Você não tem noção das coisas.
Percebendo a tensão, a enfermeira saiu discretamente. Benício e Maria Luiza já estavam próximos e cumprimentaram Alan apenas com um gesto.
– Como é?
– Você não tem noção das coisas. – Danilo repetiu dando ênfase a cada palavra. – Nossa mãe poderia ter morrido e você age normalmente?
– O que você quer que eu faça?
– Pensar um pouco menos em você.
Benício colocou a mão sobre o ombro de Danilo e com os olhos pediu que ele mantivesse a calma.
– É impressão minha ou você está me culpando? – Alan perguntou, cruzando os braços. Seus olhos não esconderam o aborrecimento.
Danilo baixou a cabeça e enxugou os olhos com a palma da mão.
– Esse não foi o primeiro infarto da nossa mãe.
Alan respirou fundo e levou as duas mãos ao rosto. Perguntou a si mesmo se Danilo o perdoaria algum dia. Não aguento mais isso, lamentou. 
– Dessa vez não foi minha culpa. – falou em sua defesa.
Danilo ficou em silêncio e procurou um lugar para se sentar. Avistou duas cadeiras no final da enfermaria e caminhou em direção a elas, desabando o corpo sobre a que lhe parecia menos desconfortável. Ele colocou os cotovelos sobre os joelhos e, apoiando o rosto com as mãos, permitiu-se chorar.
Alan olhou para Maria Luíza com certo pesar e repassou-lhe algumas orientações feitas pelo médico da sua mãe. Após algumas breves indicações, ele concluiu:
– Ela está no quarto dezesseis, logo ali na frente – explicou, apontando para uma porta estreita, com uma placa de silêncio presa à maçaneta.
Maria Luíza meneou a cabeça positivamente.
– Voltarei mais tarde. Qualquer coisa liguem, por favor. – pediu Alan.
Benício o tranquilizou e se despediu com um abraço. Maria Luíza repetiu o gesto, acrescentando-lhe um beijo no rosto. Após a saída de Alan, os dois deram as mãos e compartilharam de um mesmo olhar inquieto. Embora concordassem que Alan fosse egoísta e muitas vezes irresponsável, acreditavam que Danilo o penalizava demais. Se todos têm o direito de errar, naturalmente temos o dever de não negar esse direito a alguém. Alan havia cometido um erro grave, sem dúvida alguma. Mas ele não poderia ser culpado pelo resto da vida.
– Eu vou lá fora comprar alguma coisa pra ele comer. Vê se você consegue conversar com ele. Sei lá, tenta acalmá-lo um pouco. Você é bom nisso. – falou Maria Luíza, tentando esboçar um sorriso.
Benício concordou e a beijou no rosto. Após beijá-lo também, ela saiu e despareceu pelo corredor. O rapaz soltou o ar lentamente, sentindo um aperto no coração. A instabilidade e efemeridade da vida sempre o assustavam.
Aproximando-se de Danilo, Benício puxou uma cadeira de plástico, que parecia estar ali desde a fundação do hospital, e fez um esforço para se sentir acomodado sobre ela. Danilo continuava com a cabeça repousada sobre as duas mãos. Estava em silêncio e não parecia chorar. Benício passou o braço sobre os ombros do amigo, abraçando-o na tentativa de acalentá-lo. Sem mudar de posição, Danilo falou com a voz abafada:
– Foi o terceiro infarto, Ben. Três infartos em menos de quatro anos. Como vai ser a vida dela a partir de agora?
Benício o abraçou ainda mais forte.
– A tia Juliana é uma mulher guerreira, cheia de fé. Não se desespere, meu amigo. Ela vai superar tudo isso.
Danilo levantou o rosto e reclinou-se sobre o encosto da cadeira. Sua expressão mudou de tristeza para raiva.
– Isso é coisa do Alan. Parece que ele adora irritar a nossa mãe.
Benício suspirou. Era um assunto delicado.
– Dan, você não pode continuar culpando o seu irmão. – ele falou com o máximo de suavidade que conseguiu. – O Alan errou da primeira vez e errou muito feio. Todos nós sabemos disso. Mas já está na hora de você perdoá-lo.
Danilo começou a balançar as pernas freneticamente. Aquela conversa sempre o deixava nervoso.
– Eu já falei que não consigo, Ben. O Alan sempre foi um inconsequente, um garoto mimado. Mas maltratar a nossa mãe, agir de maneira grosseira, mesmo sabendo que ela estava doente? Ele passou de todos os limites.
– Ele sabe disso. Ele já aprendeu a lição, Dan.
– Não é o que parece. – Danilo intensificou a voz. – Eu estou nesse hospital mais uma vez. Nós estamos aqui mais uma vez. Será mesmo que ele aprendeu?
Benício pousou a mão sobre o joelho de Danilo e procurou palavras verdadeiras, mas que não soassem agressivas.
– Essa mágoa está fazendo muito mal a você. Esqueça essa história, Dan. Você não é o tipo de pessoa que guarda mágoa. Não combina contigo.
De sobressalto, Danilo ficou em pé e seu rosto enrubesceu. Virando-se para Benício, ele externalizou o que havia guardado durante anos.
– Eu vi a minha mãe jogada no chão da sala, Benício, sufocando de dor e sem fôlego para chamar ajuda. Eu pensei que iria perdê-la. Era a minha mãe, cara, morrendo na minha frente. Eu nunca vou esquecer aquela noite. E eu não consigo deixar de culpa-lo. – Danilo voltou a sentar e mais uma vez apoiou a cabeça sobre as mãos. – Ele gritou com a nossa mãe por causa de uma menina idiota, Ben. Por causa de uma pirralha. Eu sei que também namoro um monte de menina fútil, mas eu jamais machucaria a minha mãe. O Danilo falou coisas horríveis e ainda levantou o braço pra ela. Se eu não estivesse lá, ele teria batido na minha mãe. E a merda teria sido completa... – A voz de Danilo mudou e ele não conteve o choro. – Não vou perdoá-lo, Ben. Eu não consigo fazer isso.
Benício escolheu ficar calado. De maneira involuntária, ele passou a mão sobre o cabelo de Danilo e repetiu o gesto diversas vezes. Absorvido pela emoção do momento, Benício nem se deu conta do quanto havia esperado por tocá-lo daquela maneira. Já não bastava o amor fraternal de Danilo, nem mesmo a cumplicidade que havia entre eles. Ele queria mais. Benício o amava em dobro a cada dia, com uma força voraz e incontrolável. Ele esperava com grande expectativa o dia em que Danilo seria seu. Ele era seu amor mais antigo, o prazer mais cobiçado, o toque mais esperado. Acima de tudo, Danilo era a dor mais pulsante, que se confundia com alegria e se transformava em paixão.
Danilo virou o rosto e olhou diretamente para os olhos de Benício, esboçando um leve sorriso. Um frio percorreu o corpo de Benício, que não conseguiu retribuir o olhar, nem mesmo o sorriso. Estaria louco ou Danilo havia correspondido ao carinho? Ele está abalado. Não posso misturar as coisas, concluiu para si mesmo. Mas Danilo continuava a encará-lo, sem perder o sorriso tranquilo. Benício não conseguia acreditar. Também não conseguiu evitar que sua mão abandonasse os cabelos de Danilo e caminhasse em direção ao seu rosto. Ele acariciou delicadamente a face do amigo, que parecia não estar minimamente incomodado. Benício estava com o coração acelerado e as pernas trêmulas. Sua respiração ficou ofegante e sua boca estava seca. Danilo estava ali, bem próximo e seus olhos pareciam pedir alento e consolo. Não houve palavras, apenas o momento. Benício sofreu ao pensar que logo iria acabar. Sofreu porque já não se imaginava sem a proximidade daquele olhar. Sofreu e sofreu um pouco mais. Era muita felicidade para um instante apenas.
De longe, Maria Luíza os observava. O toque. O olhar. Duas pessoas que ela amava. Uma cena que ela não esperava assistir. Benício e Danilo? As interrogações pareciam transbordar, escorrendo pelo seu corpo inteiro. Ela permaneceu imóvel. Não conseguia se mexer. Sentiu-se invadida por um sentimento diferente e indescritível. Não era dor, nem era tristeza. Era uma sensação desconhecida. Aquele momento durou alguns infindos segundos, até que ela conseguiu virar o corpo e sair pelo mesmo caminho que havia feito. Caminhou pelo longo corredor, passou pela recepção e logo se viu fora do hospital. Sentia-se sem fôlego. O ar parecia não chegar aos seus pulmões. O sentimento continuava indecifrável, no entanto latente. Quando a primeira lágrima escorreu, Maria Luíza não desejou conter o pranto. Então chorou.

A alguns metros dali, alguém a admirava com olhos preocupados e com o coração compassivo. Pensou em sair ao encontro dela, oferecer-lhe consolo, mas optou por entrar no carro e seguir o seu caminho. Por que procurar motivos para sofrer? Maria Luíza nunca seria sua.

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