quinta-feira, 16 de maio de 2013

Capítulo 1. "Danilo, Malu e Benício".

Ela estava deitada no chão e com a cabeça recostada sobre as costas de Danilo, enquanto lia alguns versos de Mário Quintana. Seus cabelos, que estavam mais claros e longos, deslizavam pelas pernas do rapaz, que repousava a cabeça sobre os próprios braços. Eles se conheciam desde os cinco anos de idade, quando os pais de Maria Luíza, após o primeiro divórcio, decidiram casar novamente e morar em outro estado. Dois anos depois, a menina viu seu pai sair de casa novamente, quase entendendo que o veria pela última vez. Foi nesse mesmo dia que Danilo surgiu na sua vida, após um encontro nada convencional.
– Você não imagina do que eu lembrei agora. – Danilo falou de supetão em tom de gracejo, virando o rosto para trás o máximo que pôde.
Maria Luíza interrompeu a leitura e falou energeticamente:
– Não quero saber das tuas aventuras sexuais, safado.
Danilo murmurou alguma coisa e virou o corpo de maneira brusca, deixando Maria Luíza escorregar propositalmente.
– Sua louca, não tem nada a ver com isso. – retrucou, com um leve sorriso.
Maria Luiza levantou do chão rapidamente e deu um soco no ombro do amigo.
– Quase você me machuca, seu rinoceronte. Você é um agressor. Estúpido...
Danilo riu.
– Chega, mulher. Deixa eu falar.
– Fala, Danilo. Fala logo.
Maria Luíza mexia a cabeça de um lado para outro, alongando o pescoço. Ficar deitada com a cabeça sobre as costas de Danilo era um hábito não muito confortável. O rapaz era grande o suficiente pra causar um leve torcicolo. Na verdade, Maria Luiza sempre acabava arrependida da brincadeira.
– Lembrei do dia que a gente se conheceu. – Danilo disse sorridente. – Nesse mês faz 19 anos que a gente se conhece.
Ela esboçou um largo sorriso.
– Nossa, Dan! É verdade.
– Faz 19 anos que você me jogou do escorregador do parquinho, Malu.
Maria Luíza arregalou os olhos e berrou no seu melhor agudo:
– Eu te empurrei, Danilo? Eu?
– E agora me deixou surdo. – Falou Danilo, levando as duas mãos em direção às orelhas. – Escandalosa! Você tentou me matar quando a gente tinha cinco anos, Maria Luíza. Nem começa a fingir.
– Ai, seu sínico. Foi você que puxou o meu cabelo e depois me empurrou daquele escorregador. – Ela levantou a barra da calça e mostrou uma pequena cicatriz no tornozelo. – E eu posso provar com isso aqui.
Danilo chegou bem perto da cicatriz e semicerrou os olhos, fingindo que não conseguia enxergar. Ele meneou a cabeça negativamente e apontou para o próprio joelho.
– Isso aqui prova que fui vítima, Malu.
– Não, querido. Essa cicatriz aí prova que você sempre foi um pentelho.
– Olha, que barbaridade. – Ele falou em tom de decepção, bastante dramático.
– Nem vem! Vou caiu da árvore, Danilo. Foi querer dar um de esperto, achando que estava no melhor esconderijo de todos, resultado... Isso aí! E ainda caiu em cima do Pirulito. Coitado.
Danilo riu alto e Maria Luíza o acompanhou na gargalhada. Os dois ficaram encostados no sofá e ali perderam as horas, trocando lembranças e rindo aos montes. Maria Luíza era ótima para lembrar todos os menores e aparentemente supérfluos detalhes, enquanto Danilo tentava distorcer as histórias que não o agradavam. Em algum momento os dois choraram. Ambos conheciam bem as suas dores. Após 19 anos de amizade, eles também haviam colecionado problemas e crises. Situações difíceis, que a vida tinha reservado sem pedir permissão. Surpresas que deixaram cicatrizes interiores. Mas naquele momento, não houve espaço para lamúrias.
Estamos juntos há quase duas décadas, Danilo pensou enquanto observava Maria Luíza mexer os braços freneticamente e falar sem parar. Malu era uma menina linda sem fazer esforço algum. E naquele dia, ela parecia estonteante, resplandecente. Sempre que sorria, Maria Luíza ficava com os olhos bem fechadinhos, pequenininhos. Danilo adorava aquilo. Adorava também os seus cabelos castanhos ondulados, que cheiravam a camomila com leite. Sem falar em seus dentes brancos e lábios rosados, que pareciam pedir um beijo.
Danilo apertou os olhos e colocou a mão sobre o rosto. Que pensamento era aquele? Malu era sua amiga, sua protegida, a menina dos seus olhos. Não havia atração entre eles. Não era paixão. Era amor. Puramente. E se algo estivesse mudando, a situação se tornaria inconsistente. Danilo sabia que suas chances tinham ficado no passado.
– Você está bem? – perguntou Maria Luíza, interrompendo os pensamentos de Danilo. – Você ficou estranho agora. Lembrou de alguma coisa?
Ele ia inventar uma mentira qualquer quando, do lado de fora da casa, uma buzina mudou o rumo da conversa.
– Deve ser o Pirulito – ele sugeriu.
– Acho que sim.
Maria Luíza caminhou em direção a porta e, voltando-se para Danilo, contestou.
– E não chama ele de Pirulito. Você sabe que ele odeia.                           
Danilo fez uma careta, resmungou alguma baixaria e pegou uma toalha que estava jogada sobre o sofá.
– Vou tomar um banho – falou enquanto fechava a porta do banheiro. Em seguida falou quase gritando, em tom de advertência: – Mas se controlem vocês dois. Não deixa o Benício querer usar o pirulito dele.
Maria Luíza, que fingiu não ouvir o comentário libidinoso de Danilo, recebeu o namorado com um beijo rápido.
– Eu trouxe sushi. – Benício mostrou a sacola que estava segurando.
– Que bom que você adivinhou, amor.                                                                                               
Ele sempre adivinhava. Benício era o tipo de namorado atencioso, que notava detalhes pequenos e percebia as coisas no ar. Era bonito, com um olhar marcante. Seu corpo era magro e bem torneado, sem a ajuda da musculação. Benício adorava tênis, corrida e treinos com corda, atividades que praticava semanalmente. Era um jovem saudável e bem quisto por todos. Não colecionava amigos, mas zelava pelos seus. Benício e Malu namoravam há menos de três meses, embora tenham se conhecido quando crianças, alguns anos depois do incidente envolvendo Danilo e o escorregador. Desde então, os três não se largaram mais. Tratavam-se como irmãos, o que tornou o namoro entre Malu e Benício uma surpresa realmente inesperada. Para alguns, quase incestuosa.
Maria Luíza o beijou novamente e pegou a sacola de sua mão, levando-a para a cozinha. Benício sorriu e deu uma olhada ao redor, estranhando o silêncio do lugar.
– Pensei que o Danilo estivesse aqui.
Maria Luíza respondeu da cozinha, intensificando a voz:
– Tá tomando banho.
– É um favor que ele nos faz.
Benício sentou no sofá e colocou os pés sobre a mesa de centro. Maria Luíza se aproximou e o abraçou por cima dos ombros.
– Você não sabe o que a Danilo tentou hoje.
– Se foi te agarrar, ele vai morrer.
– E quem vai matar?
– Eu, claro.
Benício riu de si mesmo. Ele mal conseguia matar baratas. Sentia pena. Ou era nojo?
– Ele tentou me culpar por aquela cicatriz que ele tem no joelho, acredita? – contou Malu ranzinza. – E ainda disse que eu tinha empurrado ele do escorregador.
Benício virou o corpo no sofá, ficando de frente para Maria Luíza.
– Olha que sacanagem! – vociferou. – Como se eu não lembrasse que ele caiu em cima de mim.
Maria Luíza concordou com a cabeça e sorriu.
– Eu sei. Naquele tempo você ainda era o Pirulito. – ela falou, segurando uma gargalhada. – Um pirulito com braços e pernas.
Benício fez uma careta e cruzou os braços.
– Mas agora você está um pedaço de mau caminho.
Maria Luíza deu a volta no sofá, sentou no colo de Benício e o beijou.
Danilo, que acabara de sair do banheiro, passou pela sala e, vendo os dois amigos juntos, tentou disfarçar o ciúme com um gracejo.
– Procurem um quarto, por favor. Depois eu que sou o safado, dona Maria Luíza?
Maria Luíza sorriu para Benício e o beijou rapidamente no rosto. Então, se levantou e saiu em direção a cozinha, esbarrando propositalmente em Danilo, que balançava a cabeça de um lado para outro, como se estivesse a recriminando.
– Me poupa tá, garoto. Papai foi embora faz tempo.
 Danilo riu e se sentou ao lado de Benício.
– Ainda não acredito que vocês estão namorando.
– Acho que nem eu acredito. – respondeu Benício francamente. – E o seu rolo com a Vitória?
Danilo entortou a boca e começou a puxar a própria orelha. Benício sabia que aquele gesto sempre significava a mesma coisa.
– Eu não acredito, Dan.
– Eu sei que Vitória é uma menina incrível. – Danilo tentou se explicar. – Mas você sabe que ela quer namorar e eu...
– Quer ficar na putaria pra sempre.
– É. Mais ou menos isso.
– Uma hora você vai ter que se ajeitar, meu amigo.
– Eu sei disso. – Danilo soltou o ar demoradamente e se levantou. – Eu vou me trocar.
Ele não estava com disposição, nem com vontade de fingir que tudo estava normal. Não queria mentir para Benício. Nunca havia escondido nada dele. Mas agora, o seu melhor amigo era o namorado da sua melhor amiga. Algumas coisas teriam que mudar e isso já estava acontecendo.
Benício observou o amigo caminhar e desaparecer no corredor. Danilo estava só de toalha, exibindo seu corpo perfeito. Para alguns, Danilo estava perdendo as formas definidas e ganhando algumas gordurinhas mais visíveis, mas para Benício ele estava mais lindo do que nunca. Benício colocou os dois braços sobre a cabeça e deixou o corpo cair sobre o sofá. Uma onda de medo o invadiu, trazendo uma porção de questionamentos. Ele pensou em Malu, a sua melhor amiga e também sua namorada. Ele a amava demais para permitir que ela sofresse. Onde eu estava com a cabeça?, pensou em silêncio. Benício namorava Manu, mas a sua paixão era Danilo, seu melhor amigo. Ele sentiu vergonha de si mesmo.
Benício levantou do sofá e caminhou até a cozinha, sentindo as mãos frias e trêmulas. Ele teria coragem suficiente para contar a verdade?
– Você quer um copo de suco? – perguntou Maria Luíza ao vê-lo passar pela porta. – Acabei de fazer.
Benício meneou a cabeça pra cima e pra baixo. Ele puxou uma cadeira e sentou à mesa. Não tinha pra onde correr. Ele precisava encarar os fatos.
Maria Luíza entregou o copo de suco e sentou ao lado dele.
– Está tudo bem? – perguntou, percebendo que o rosto dele estava pálido.
– Faz tempo que eu quero te contar uma coisa. – ele começou. – Mas eu nunca tive coragem. Somos amigos, eu sei. Mesmo assim...
– Somos mais do que amigos, Ben. – ela o interrompeu. – Somos irmãos. O namoro não mudou e nunca vai mudar isso. Você pode me contar qualquer coisa.
Benício aquiesceu.
– É sobre o Danilo – ele falou com a voz hesitante.
Mas antes que ele pudesse continuar, Danilo entrou na cozinha com os olhos vermelhos e com a respiração ofegante. Parecia que tinha corrido por horas.
– O que foi, Dan? – perguntou Malu.
– A minha mãe. – ele falou segurando o choro. – Ela sofreu um acidente e está muito mal.
Alguns minutos depois, os três saíram imediatamente rumo ao hospital.



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