quarta-feira, 5 de junho de 2013

Capítulo 3. "Então somos três?"

Maria Luíza fechou os olhos e, de um instante para outro, a voz de Benício desapareceu, dando lugar ao som de Jason Mraz. Exuberante em seu vestido vermelho, ela examinava a maquiagem e arrumava algumas mechas de cabelo. O delineador acentuava seus olhos castanhos, garantindo-lhe uma força atraente, quase intimidadora. E o toque suave do gloss em seus lábios, deixava-os discretamente sensuais. Ela sorriu. Embora preferisse o jeans, não pôde e nem quis negar que estava bonita. Quando a música Butterfly começou, Maria Luíza soltou o corpo e deixou se envolver pelo ritmo. Mexendo os ombros e os quadris, ela dançava em frente ao espelho. Maria Luíza era naturalmente musical e, após a influência de Benício, apaixonou-se pelo jazz. Quando estava em seu quarto, era impossível haver silêncio. Era impossível não haver música.
Três toques consecutivos na porta do quarto a interromperam. Após alguns segundos de silêncio, vieram outros três toques igualmente sucessivos. Maria Luíza reconheceu o código e permitiu a entrada de Danilo, que imediatamente correspondeu. Ao olhar para a amiga, ele não conseguiu esconder o deslumbre. Perdeu as palavras. Maria Luíza sorriu vaidosa e examinou-se no espelho mais uma vez.
– Estou tão bonita assim?
– Completamente. – ele respondeu boquiaberto.
Já havia alguns dias que um sentimento novo começava a nascer em Danilo. Um sentimento diferente de todos os outros que ele conhecia.
– Vou sair com o Ben, acredita? – Maria Luíza falou um pouco apreensiva. – Eu juro que não esperava por isso.
Ninguém esperava, especialmente ele. Benício e Malu? Isso parecia irreal, uma fantasia ou mesmo uma brincadeira de mau gosto. Afinal, eles eram três. Seria impossível imaginá-los de outra maneira. Isso não poderia mudar.
Danilo permaneceu em silêncio, com os olhos fitos em Maria Luíza. Ocupada com os últimos detalhes do vestuário, ela não percebeu o olhar ansioso do amigo. Nem mesmo ele conseguia entender, mas seu coração estava prestes a saltar pela boca. Estaria apaixonado pela sua melhor amiga ou simplesmente estava com medo de perder dois amores?
Foi Jaqueline que, entrando no quarto, libertou-o dos próprios pensamentos.
– O Benício está na sala. – avisou a mãe de Maria Luíza, que fez questão de enfatizar o tom de surpresa.
Maria Luíza olhou para Danilo, fazendo-o um pedido silencioso. Ele meneou a cabeça positivamente, fez cara de poucos amigos e saiu ao encontro de Benício. Só que me faltava, ele pensou. Agora eu virei o irmão mais novo.
No quarto, Jaqueline se aproximou da filha e falou quase cochichando.
– Eu não acredito que você e Benício estão namorando.
– Nós não estamos namorando, mãe. – falou Maria Luíza, enquanto colocava os brincos. – E você fala isso porque prefere o Danilo.
Jaqueline suspirou um pouco aliviada. Imaginar Maria Luíza namorando Benício não lhe parecia agradável. Ela adorava o rapaz, mas Danilo realmente era seu preferido. Admirava-o pela alegria e jovialidade que não lhe abandonavam. Sem dúvida, Benício era mais sensível e carinhoso. E mais prestativo também. No entanto, era Danilo quem lhe passava mais segurança e firmeza. Via-o como um jovem certo de si mesmo, sem questões mal resolvidas. Quanto a Benício, parecia que sempre havia uma nuvem de interrogações sobre a sua cabeça. E ela sabia que algo novo estava acontecendo. Os três sempre andavam juntos e agarrados. Um encontro a dois, entre sua filha e Benício, significava muita coisa. Ela suspirou mais uma vez. Por que não o Danilo, pensava Jaqueline, se além de tudo ele é lindo?
– Eu não entendo porque você não namora o Danilo. – confessou Jaqueline.
Maria Luíza não respondeu.
– Você ama esse menino, Malu.
– Sim, eu amo. Mas é amor de amigo.
– E ele te ama.
– Sim, eu sei, mãe. Mas ele também me ama como amiga.
– Você sabe que eu tenho minhas dúvidas.
– Sobre o amor dele por mim?
– Não. Sobre o amor de vocês dois.
Jaqueline percebeu no olhar de Maria Luíza que nela também havia incertezas. Mas para não atrapalhar a noite da filha, preferiu encerrar a conversa com um elogio. Após beijá-la no rosto, Jaqueline saiu do quarto.
O amor de vocês dois, pensou Maria Luíza. Agora não tinha mais jeito. Indubitavelmente, a frase voltaria a sua mente durante toda a noite. Os sentimentos guardados também voltariam com rapidez, junto com as muitas lembranças secretas. Sentiu-se arrebatada por emoções antigas, cheias de pureza misturada com malícia. Viu a si mesma criança e adolescente, com dois braços entrelaçados aos seus. Maria Luíza fazia parte de três corações, três sorrisos, três olhares. Não houve tempo para ser dois. Eles sempre foram três.

Quando Me and Mr. Jones começou a tocar na rádio do carro, Maria Luíza percebeu que já não estava no quarto, nem vestida como naquela noite. Seus pensamentos haviam regressado para um momento inesquecível, mas a realidade a trouxe de volta, para uma noite completamente diferente. Seu primeiro encontro com Benício havia acontecido quatro meses atrás, cheio de boas surpresas. E agora ele estava ali, ao seu lado, segurando-lhe a mão. Seu namorado. Alguém que, em breves segundos, tornou-se um enigma. Benício e Danilo? Seus dois amores? Maria Luíza se lembrou do olhar entre os dois. Lembrou-se também do toque carinhoso de Benício, acariciando a face de Danilo. Sentiu um arrepio. Náusea. Não era raiva. Era medo, misturado com dúvida. Sentia-se traída, talvez, mas não magoada. Então, eles eram três? Três amores tão revelados quanto secretos? Ela não conseguia organizar as ideias. Poderia estar enganada, confundindo as coisas. Maria Luíza desejou acreditar nisso. Mas não parecia haver dúvida no olhar de Benício. Não havia medo. Só havia amor. E ela estava bem no meio disso tudo. A ideia lhe causou mal estar. Abandonando a mão de Benício, ela abriu a porta do carro.
– Já está tarde e estou cansada.
Maria Luíza ia sair do carro quando Benício a segurou pelo braço.
– Você está bem? – ele perguntou preocupado.
– Eu não poderia estar bem. – ela falou insipidamente.
Benício reconheceu aquele tom. Maria Luíza nunca se exaltava com ele. Não era preciso. Ambos conheciam bem as suas emoções.
– Você tem razão. A situação é complicada.
– Não estou falando sobre a doença da tia Juliana.
– Eu sei que não. – confessou Benício. – Eu vi quando você saiu da enfermaria. Você me viu com o Danilo.
Maria Luíza foi pega de surpresa. Algumas palavras quase lhe escaparam dos lábios, mas ela se controlou.
– Você não precisa medir as palavras comigo. – falou Benício, como se estivesse adivinhando os pensamentos dela.
Maria Luíza fechou a porta do carro novamente e viu o próprio rosto refletido no retrovisor. Sentiu-se feia. Inferior. Desprezada, talvez.  
– Por que você não me disse? – ela perguntou, sem olhar para Benício. Seus olhos estavam marejados, mas ela não queria chorar.
– Eu tentei te dizer.
– Quando?
– Hoje, quando estávamos na cozinha.
– Hoje? – ela exclamou sem gritar, olhando novamente para ele. – Pelo amor de Deus, Benício. Já se passaram quatro meses. Por que você não me contou antes?
Benício emudeceu.
– O que você pensou? – ela perguntou rispidamente. – Achou que poderia continuar fingindo e me enganando?
– Claro que não, Malu. Você me conhece. – Ele falou com a voz hesitante.
– Você estava me usando, Benício.
– Eu não estava te usando.
– Claro que estava. Você desfilava comigo pra evitar comentários.
– Não diz disso, por favor.
– Não se faz de vítima, Benício.
Ele permaneceu calado. Não poderia chorar. Seria pior.
– Eu não reconheço você. – afirmou Maria Luíza, levantando-se do banco mais uma vez. Então usou toda sua força para fechar a porta do carro.
Benício saiu ao encontro dela, mas escolheu não se aproximar demais. Manteve uma distância segura.
– Eu nunca usaria você. Não foi por isso que começamos a namorar.
Maria Luíza fingiu não ouvir, enquanto procurava suas chaves na bolsa.
– Não foge de mim, Malu. – Benício pediu. Na verdade, suplicou.
– Chega por hoje. – ela falou sem olhar para ele.
Benício se aproximou e pousou a duas mãos sobre os ombros de Maria Luíza.
– Eu deveria ter te contado antes, eu sei.
– Não contou porque é covarde.
Maria Luíza virou bruscamente, encostando-se contra o portão.
– Você é um covarde, Ben. – ela continuou. – Não respeitou a mim, muito menos a você mesmo. Não zelou pelos nossos sentimentos. Não conseguiu superar o seu próprio preconceito.
– Preconceito?
– E não é preconceito?
– Claro que não. Foi uma tentativa, Malu. Eu só queria que acontecesse algo especial entre a gente.
– Nós já tínhamos algo especial.
Maria Luíza abriu o portão e entrou na casa a passos rápidos. Após fechá-lo, Benício a seguiu.
– Você não entende mesmo.
– Claro que eu entendo. Você quis se esconder atrás de mim.
Ela subiu as escadas, em direção ao quarto. Benício continuou a segui-la.
Os dois entraram no quarto.
– Você estava tentando gostar de mulher, Benício. E adivinha quem você escolheu pra te converter?
– Você está exagerando, Malu.
 Maria Luíza abriu a porta do guarda-roupa, mesmo sem saber o que estava procurando.
– Estou nada! – ela gritou, virando-se para ele. – Você nunca me olhou daquele jeito, Benício. Você nunca me tocou daquele jeito. Eu pude sentir a sua respiração ofegante. – Maria Luíza pensou nas próprias palavras e então continuou: – Não sou eu quem você deseja. Você morre de tesão pelo Danilo.
– Você está sendo muito dramática.
– E você está sendo sínico.
Maria Luíza tirou uma toalha limpa do guarda-roupa e a colocou sobre os ombros.
– Vamos encerrar essa conversa. Estou cansada.
Benício estava disposto a continuar. Era assim que eles resolviam as coisas.
– Foi apenas um olhar, Malu.
– Não me diz isso, pelo amor de Deus. Eu te conheço há um milhão de anos, Benício. Não vem querer mentir, achando que eu vou acreditar. Eu sei o que eu vi. Mesmo de longe eu pude sentir o que rolou entre vocês dois. Era tesão sim, meu querido. Atração, desejo, excitação, libido, luxúria... Eu posso passar a noite inteira descrevendo o que eu vi.
– Agora eu me senti um cão no cio. Um tarado descontrolado.
– Deixa de ser criança, Ben. Não fica fingindo que você não sente essas coisas.
– Eu não quero sentir. Não por ele.
– Mas você sente! – Maria Luíza explodiu. – Você vai passar o resto da vida fingindo e escondendo esse sentimento? Quantas outras meninas você vai usar? Quanto tempo mais você vai ficar fugindo da realidade? Você tem 22 anos, cara. Já deveria ter percebido que você é assim. – Ela diminuiu o tom. – Não mente mais pra você, Benício.
Ele desviou o olhar. Cruzou os braços. Segurou o choro.
– No fundo todos nós gostaríamos de ser diferentes.
– Todos nós quem, Ben?
Benício ficou em silêncio. Parecia impossível responder.
– Fala, Ben. – insistiu Maria Luíza, com voz suave. – Diz o que você é.
Ele baixou a cabeça e, após alguns segundos, falou com voz abafada:
– Gay.
Maria Luíza não pôde negar o peso de tal afirmação. Estava surpresa. Espantada. Mas isso não importava. Carinhosamente, ela posou as mãos sobre os braços dele.
– Não se envergonhe. Não existe motivo pra isso. Você é gay, mas também é um homem maravilhoso, que tem qualidades incríveis. Veja-se como um todo, meu amigo. A sexualidade é apenas uma parte de você. É um detalhe, Ben.
– É um detalhe que já me trouxe muita dor, Malu.
Maria Luíza respirou fundo. Lamentou não ter sofrido junto com ele.
Benício deu alguns passos para trás e se sentou na cama. Seus lábios estavam trêmulos e seus olhos cheios d’água. Maria Luíza se esforçou para não demonstrar fraqueza, embora em seu coração desejasse chorar com ele.
– Você precisa aceitar tudo isso. – ela falou de maneira branda, mas sem perder o vigor.
Benício baixou a cabeça e enxugou os olhos com a palma da mão.
– Parece fácil quando você fala.
Maria Luíza sentou ao lado dele.
– Eu sei que não é fácil. Mas é simples.
– Eu queria que fosse diferente, Malu.
– Mas não é. Você escolheu isso?
– Claro que não.
– Então aceite.
Benício olhava para os próprios pés.
Maria Luíza segurou a mão do amigo, levando-a em direção aos lábios para lhe dar um beijo.
– Você sabe que eu te amo, menino bobo.
Benício sorriu, mas não conseguiu olhar para ela.
– A gente sempre vai se amar.
Maria Luíza colocou a mão sobre face de Benício, pedindo-lhe que olhasse pra ela. Ao virar o rosto, ele foi surpreendido com um beijo. Aqueles lábios lhe pareciam desconhecidos. Ela jamais havia o beijado de tal maneira. Embora agradável, o beijo o deixou assustado. Benício afastou o rosto.
– Vamos continuar a conversa amanhã? – ele perguntou sem jeito.
Maria Luíza concordou com a cabeça. Os dois se levantaram e, de mãos dadas, caminharam em direção à porta. Foi Benício quem abriu a porta, mas voltando-se para Maria Luíza a abraçou com intensidade. As mãos dela caminhavam pelas costas e pescoço de Benício, que correspondia de maneira igual. Os dois compartilhavam de um mesmo desejo.
Benício a beijou, mas logo afastou o rosto. Olhou para sua amiga. Linda. Se pudesse escolher, não queria estar com mais ninguém. Ele a beijou mais uma vez e, encostando-a contra a porta, virou o trinco da maçaneta. Beijaram-se por longos minutos, enquanto seus braços e pernas entrelaçavam-se com força e muito calor.  
Bastou um instante para que os dois estivessem despidos.
Naquela noite, amaram-se pela primeira vez.

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