Maria
Luíza fechou os olhos e, de um instante para outro, a voz de Benício
desapareceu, dando lugar ao som de Jason Mraz. Exuberante em seu vestido
vermelho, ela examinava a maquiagem e arrumava algumas mechas de cabelo. O
delineador acentuava seus olhos castanhos, garantindo-lhe uma força atraente,
quase intimidadora. E o toque suave do gloss em seus lábios, deixava-os
discretamente sensuais. Ela sorriu. Embora preferisse o jeans, não pôde e nem
quis negar que estava bonita. Quando a música Butterfly começou, Maria Luíza
soltou o corpo e deixou se envolver pelo ritmo. Mexendo os ombros e os quadris,
ela dançava em frente ao espelho. Maria Luíza era naturalmente musical e, após
a influência de Benício, apaixonou-se pelo jazz. Quando estava em seu quarto,
era impossível haver silêncio. Era impossível não haver música.
Três
toques consecutivos na porta do quarto a interromperam. Após alguns segundos de
silêncio, vieram outros três toques igualmente sucessivos. Maria Luíza
reconheceu o código e permitiu a entrada de Danilo, que imediatamente
correspondeu. Ao olhar para a amiga, ele não conseguiu esconder o deslumbre.
Perdeu as palavras. Maria Luíza sorriu vaidosa e examinou-se no espelho mais
uma vez.
– Estou
tão bonita assim?
–
Completamente. – ele respondeu boquiaberto.
Já havia
alguns dias que um sentimento novo começava a nascer em Danilo. Um sentimento
diferente de todos os outros que ele conhecia.
– Vou sair
com o Ben, acredita? – Maria Luíza falou um pouco apreensiva. – Eu juro que não
esperava por isso.
Ninguém
esperava, especialmente ele. Benício e
Malu? Isso parecia irreal, uma fantasia ou mesmo uma brincadeira de mau
gosto. Afinal, eles eram três. Seria impossível imaginá-los de outra maneira. Isso
não poderia mudar.
Danilo
permaneceu em silêncio, com os olhos fitos em Maria Luíza. Ocupada com os
últimos detalhes do vestuário, ela não percebeu o olhar ansioso do amigo. Nem
mesmo ele conseguia entender, mas seu coração estava prestes a saltar pela
boca. Estaria apaixonado pela sua melhor amiga ou simplesmente estava com medo
de perder dois amores?
Foi
Jaqueline que, entrando no quarto, libertou-o dos próprios pensamentos.
– O
Benício está na sala. – avisou a mãe de Maria Luíza, que fez questão de
enfatizar o tom de surpresa.
Maria
Luíza olhou para Danilo, fazendo-o um pedido silencioso. Ele meneou a cabeça
positivamente, fez cara de poucos amigos e saiu ao encontro de Benício. Só que me faltava, ele pensou. Agora eu virei o irmão mais novo.
No
quarto, Jaqueline se aproximou da filha e falou quase cochichando.
– Eu não
acredito que você e Benício estão namorando.
– Nós não
estamos namorando, mãe. – falou Maria Luíza, enquanto colocava os brincos. – E
você fala isso porque prefere o Danilo.
Jaqueline
suspirou um pouco aliviada. Imaginar Maria Luíza namorando Benício não lhe
parecia agradável. Ela adorava o rapaz, mas Danilo realmente era seu preferido.
Admirava-o pela alegria e jovialidade que não lhe abandonavam. Sem dúvida,
Benício era mais sensível e carinhoso. E mais prestativo também. No entanto,
era Danilo quem lhe passava mais segurança e firmeza. Via-o como um jovem certo
de si mesmo, sem questões mal resolvidas. Quanto a Benício, parecia que sempre
havia uma nuvem de interrogações sobre a sua cabeça. E ela sabia que algo novo
estava acontecendo. Os três sempre andavam juntos e agarrados. Um encontro a
dois, entre sua filha e Benício, significava muita coisa. Ela suspirou mais uma
vez. Por que não o Danilo, pensava
Jaqueline, se além de tudo ele é lindo?
– Eu não
entendo porque você não namora o Danilo. – confessou Jaqueline.
Maria
Luíza não respondeu.
– Você
ama esse menino, Malu.
– Sim, eu
amo. Mas é amor de amigo.
– E ele
te ama.
– Sim, eu
sei, mãe. Mas ele também me ama como amiga.
– Você
sabe que eu tenho minhas dúvidas.
– Sobre o
amor dele por mim?
– Não.
Sobre o amor de vocês dois.
Jaqueline
percebeu no olhar de Maria Luíza que nela também havia incertezas. Mas para não
atrapalhar a noite da filha, preferiu encerrar a conversa com um elogio. Após
beijá-la no rosto, Jaqueline saiu do quarto.
O amor de vocês dois, pensou Maria Luíza. Agora não tinha mais jeito. Indubitavelmente,
a frase voltaria a sua mente durante toda a noite. Os sentimentos guardados
também voltariam com rapidez, junto com as muitas lembranças secretas. Sentiu-se
arrebatada por emoções antigas, cheias de pureza misturada com malícia. Viu a
si mesma criança e adolescente, com dois braços entrelaçados aos seus. Maria
Luíza fazia parte de três corações, três sorrisos, três olhares. Não houve
tempo para ser dois. Eles sempre foram três.
Quando Me and Mr. Jones começou a tocar na
rádio do carro, Maria Luíza percebeu que já não estava no quarto, nem vestida
como naquela noite. Seus pensamentos haviam regressado para um momento
inesquecível, mas a realidade a trouxe de volta, para uma noite completamente diferente.
Seu primeiro encontro com Benício havia acontecido quatro meses atrás, cheio de
boas surpresas. E agora ele estava ali, ao seu lado, segurando-lhe a mão. Seu
namorado. Alguém que, em breves segundos, tornou-se um enigma. Benício e Danilo? Seus dois amores?
Maria Luíza se lembrou do olhar entre os dois. Lembrou-se também do toque
carinhoso de Benício, acariciando a face de Danilo. Sentiu um arrepio. Náusea.
Não era raiva. Era medo, misturado com dúvida. Sentia-se traída, talvez, mas
não magoada. Então, eles eram três? Três amores tão revelados quanto secretos? Ela
não conseguia organizar as ideias. Poderia estar enganada, confundindo as coisas.
Maria Luíza desejou acreditar nisso. Mas não parecia haver dúvida no olhar de
Benício. Não havia medo. Só havia amor. E ela estava bem no meio disso tudo. A
ideia lhe causou mal estar. Abandonando a mão de Benício, ela abriu a porta do
carro.
– Já está
tarde e estou cansada.
Maria
Luíza ia sair do carro quando Benício a segurou pelo braço.
– Você
está bem? – ele perguntou preocupado.
– Eu não
poderia estar bem. – ela falou insipidamente.
Benício
reconheceu aquele tom. Maria Luíza nunca se exaltava com ele. Não era preciso.
Ambos conheciam bem as suas emoções.
– Você
tem razão. A situação é complicada.
– Não estou
falando sobre a doença da tia Juliana.
– Eu sei
que não. – confessou Benício. – Eu vi quando você saiu da enfermaria. Você me
viu com o Danilo.
Maria
Luíza foi pega de surpresa. Algumas palavras quase lhe escaparam dos lábios,
mas ela se controlou.
– Você
não precisa medir as palavras comigo. – falou Benício, como se estivesse
adivinhando os pensamentos dela.
Maria
Luíza fechou a porta do carro novamente e viu o próprio rosto refletido no
retrovisor. Sentiu-se feia. Inferior. Desprezada, talvez.
– Por que
você não me disse? – ela perguntou, sem olhar para Benício. Seus olhos estavam
marejados, mas ela não queria chorar.
– Eu
tentei te dizer.
– Quando?
– Hoje,
quando estávamos na cozinha.
– Hoje? –
ela exclamou sem gritar, olhando novamente para ele. – Pelo amor de Deus,
Benício. Já se passaram quatro meses. Por que você não me contou antes?
Benício
emudeceu.
– O que
você pensou? – ela perguntou rispidamente. – Achou que poderia continuar
fingindo e me enganando?
– Claro
que não, Malu. Você me conhece. – Ele falou com a voz hesitante.
– Você
estava me usando, Benício.
– Eu não
estava te usando.
– Claro
que estava. Você desfilava comigo pra evitar comentários.
– Não diz
disso, por favor.
– Não se
faz de vítima, Benício.
Ele
permaneceu calado. Não poderia chorar. Seria pior.
– Eu não
reconheço você. – afirmou Maria Luíza, levantando-se do banco mais uma vez. Então
usou toda sua força para fechar a porta do carro.
Benício
saiu ao encontro dela, mas escolheu não se aproximar demais. Manteve uma
distância segura.
– Eu nunca
usaria você. Não foi por isso que começamos a namorar.
Maria
Luíza fingiu não ouvir, enquanto procurava suas chaves na bolsa.
– Não
foge de mim, Malu. – Benício pediu. Na verdade, suplicou.
– Chega
por hoje. – ela falou sem olhar para ele.
Benício se
aproximou e pousou a duas mãos sobre os ombros de Maria Luíza.
– Eu
deveria ter te contado antes, eu sei.
– Não
contou porque é covarde.
Maria
Luíza virou bruscamente, encostando-se contra o portão.
– Você é
um covarde, Ben. – ela continuou. – Não respeitou a mim, muito menos a você
mesmo. Não zelou pelos nossos sentimentos. Não conseguiu superar o seu próprio
preconceito.
–
Preconceito?
– E não é
preconceito?
– Claro
que não. Foi uma tentativa, Malu. Eu só queria que acontecesse algo especial
entre a gente.
– Nós já
tínhamos algo especial.
Maria
Luíza abriu o portão e entrou na casa a passos rápidos. Após fechá-lo, Benício
a seguiu.
– Você
não entende mesmo.
– Claro
que eu entendo. Você quis se esconder atrás de mim.
Ela subiu
as escadas, em direção ao quarto. Benício continuou a segui-la.
Os dois
entraram no quarto.
– Você
estava tentando gostar de mulher, Benício. E adivinha quem você escolheu pra te
converter?
– Você
está exagerando, Malu.
Maria Luíza abriu a porta do guarda-roupa,
mesmo sem saber o que estava procurando.
– Estou
nada! – ela gritou, virando-se para ele. – Você nunca me olhou daquele jeito,
Benício. Você nunca me tocou daquele jeito. Eu pude sentir a sua respiração
ofegante. – Maria Luíza pensou nas próprias palavras e então continuou: – Não
sou eu quem você deseja. Você morre de tesão pelo Danilo.
– Você
está sendo muito dramática.
– E você
está sendo sínico.
Maria
Luíza tirou uma toalha limpa do guarda-roupa e a colocou sobre os ombros.
– Vamos
encerrar essa conversa. Estou cansada.
Benício
estava disposto a continuar. Era assim que eles resolviam as coisas.
– Foi
apenas um olhar, Malu.
– Não me
diz isso, pelo amor de Deus. Eu te conheço há um milhão de anos, Benício. Não
vem querer mentir, achando que eu vou acreditar. Eu sei o que eu vi. Mesmo de
longe eu pude sentir o que rolou entre vocês dois. Era tesão sim, meu querido. Atração,
desejo, excitação, libido, luxúria... Eu posso passar a noite inteira descrevendo
o que eu vi.
– Agora eu
me senti um cão no cio. Um tarado descontrolado.
– Deixa
de ser criança, Ben. Não fica fingindo que você não sente essas coisas.
– Eu não
quero sentir. Não por ele.
– Mas você
sente! – Maria Luíza explodiu. – Você vai passar o resto da vida fingindo e
escondendo esse sentimento? Quantas outras meninas você vai usar? Quanto tempo
mais você vai ficar fugindo da realidade? Você tem 22 anos, cara. Já deveria
ter percebido que você é assim. – Ela diminuiu o tom. – Não mente mais pra
você, Benício.
Ele
desviou o olhar. Cruzou os braços. Segurou o choro.
– No
fundo todos nós gostaríamos de ser diferentes.
– Todos
nós quem, Ben?
Benício
ficou em silêncio. Parecia impossível responder.
– Fala, Ben.
– insistiu Maria Luíza, com voz suave. – Diz o que você é.
Ele
baixou a cabeça e, após alguns segundos, falou com voz abafada:
– Gay.
Maria Luíza
não pôde negar o peso de tal afirmação. Estava surpresa. Espantada. Mas isso
não importava. Carinhosamente, ela posou as mãos sobre os braços dele.
– Não se
envergonhe. Não existe motivo pra isso. Você é gay, mas também é um homem
maravilhoso, que tem qualidades incríveis. Veja-se como um todo, meu amigo. A
sexualidade é apenas uma parte de você. É um detalhe, Ben.
– É um
detalhe que já me trouxe muita dor, Malu.
Maria
Luíza respirou fundo. Lamentou não ter sofrido junto com ele.
Benício deu
alguns passos para trás e se sentou na cama. Seus lábios estavam trêmulos e
seus olhos cheios d’água. Maria Luíza se esforçou para não demonstrar fraqueza,
embora em seu coração desejasse chorar com ele.
– Você
precisa aceitar tudo isso. – ela falou de maneira branda, mas sem perder o vigor.
Benício
baixou a cabeça e enxugou os olhos com a palma da mão.
– Parece fácil
quando você fala.
Maria
Luíza sentou ao lado dele.
– Eu sei
que não é fácil. Mas é simples.
– Eu
queria que fosse diferente, Malu.
– Mas não
é. Você escolheu isso?
– Claro
que não.
– Então
aceite.
Benício
olhava para os próprios pés.
Maria
Luíza segurou a mão do amigo, levando-a em direção aos lábios para lhe dar um
beijo.
– Você
sabe que eu te amo, menino bobo.
Benício
sorriu, mas não conseguiu olhar para ela.
– A gente
sempre vai se amar.
Maria
Luíza colocou a mão sobre face de Benício, pedindo-lhe que olhasse pra ela. Ao
virar o rosto, ele foi surpreendido com um beijo. Aqueles lábios lhe pareciam
desconhecidos. Ela jamais havia o beijado de tal maneira. Embora agradável, o
beijo o deixou assustado. Benício afastou o rosto.
– Vamos continuar
a conversa amanhã? – ele perguntou sem jeito.
Maria
Luíza concordou com a cabeça. Os dois se levantaram e, de mãos dadas,
caminharam em direção à porta. Foi Benício quem abriu a porta, mas voltando-se
para Maria Luíza a abraçou com intensidade. As mãos dela caminhavam pelas
costas e pescoço de Benício, que correspondia de maneira igual. Os dois
compartilhavam de um mesmo desejo.
Benício a
beijou, mas logo afastou o rosto. Olhou para sua amiga. Linda. Se pudesse escolher,
não queria estar com mais ninguém. Ele a beijou mais uma vez e, encostando-a
contra a porta, virou o trinco da maçaneta. Beijaram-se por longos minutos,
enquanto seus braços e pernas entrelaçavam-se com força e muito calor.
Bastou um
instante para que os dois estivessem despidos.
Naquela
noite, amaram-se pela primeira vez.
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