Passar a
noite em uma enfermaria, abarrotada de cardíacos, hipertensos ou diabéticos,
parecia uma pequena dose do inferno. Os sons de gemidos e pigarros, acompanhado
de esporádicos espasmos e ataques, não deixavam Danilo pregar o olho. Sentado
em uma cadeira desconfortável, ele observava Jaqueline, que embora dormisse
tranquilamente, não estava em condições superiores aos demais pacientes. Sua
mãe convivia diariamente com a possibilidade de, após um segundo qualquer, seu
coração não mais bater. Sem dúvida, ela não era a única. Todos os dias,
milhares de pessoas com problemas cardiovasculares chegavam aos hospitais.
Muitos destes não voltavam para casa.
Danilo
afastou os pensamentos negativos e tentou encontrar uma posição que lhe
agradasse. Desistiu logo em seguida. Olhou para o relógio. 2h10. O remédio de
Jaqueline estava dez minutos atrasado. Danilo murmurou alguma coisa e saiu em
direção ao balcão da enfermaria. No corredor, encontrou a enfermeira
plantonista que, para seu espanto, logo pediu desculpas pelo atraso e se
demonstrou sinceramente solícita. As madrugadas em hospitais públicos não
costumavam ser regradas a gentilezas e boa-vontade. Uma atitude diligente,
portanto, não passaria despercebida. A beleza da jovem enfermeira também
surpreendeu Danilo, que após ler o nome bordado no jaleco, agradeceu-a de modo
gentil. Mariana respondeu com um leve sorriso e entrou no quarto, empurrando um
carrinho cheio de seringas, agulhas e outros equipamentos de trabalho.
Danilo respirou
fundo e preferiu não acompanha-la. Decidiu deixar sua mãe aos cuidados de
Mariana. Estava cansado e queria passar alguns minutos sem ter que ouvir os
tantos murmúrios que vinham dos leitos. Ele caminhou até o final da enfermaria
e se sentou na mesma cadeira que estivera horas atrás, na companhia de Benício.
Pensou no velho amigo e isso lhe trouxe tranquilidade. Ao passar a mão no
cabelo, ele sentiu mais uma vez o toque de Benício, consolando-o, tratando-o,
de um jeito que ele fazia muito bem. A lembrança lhe pareceu agradável. Benício.
Quem mais lhe fazia tão bem quanto ele? Danilo sorriu. Sentiu-se com dezesseis
anos novamente, em certa noite, na varanda da sua casa.
– Por que
você está aqui fora? – Danilo perguntou.
Benício,
que estava sentado na escada, olhou para ele e deu de ombros.
– Você
sabe que eu não gosto dessa brincadeira.
– Ben,
você é o único que não gosta. É divertido.
– Eu não
acho divertido. – assegurou. – Ficar vendo uma garrafa rodar pra depois beijar
alguém? Ah, não! Isso parece desespero.
– Você é
muito certinho, Benício.
– Você
que pensa.
Danilo se
sentou ao lado dele e cruzou os braços, fazendo cara de surpresa. Esperou
Benício falar alguma coisa.
– Você e
Malu pensam que sabem tudo sobre mim.
– E não
sabemos?
– Não
tudo.
– Então
diz aí. Surpreenda! O que eu não sei sobre você?
Danilo
duvidava que houvesse algo que ele não soubesse sobre o amigo. Benício costumava
ser muito previsível, mesmo quando tentava surpreender. Se havia algum segredo,
certamente ele fazia um esforço enorme para não deixar revelar. A sinceridade
de Benício era uma admirável raridade.
– Ninguém
é uma coisa apenas, Danilo.
– O que
você está dizendo?
– Estou
dizendo que não sou todo certinho, oras.
– Não é o
que parece. Que loucura você já fez? – Danilo o desafiou.
Benício
colocou os cotovelos sobre a perna e apoiou o queixo com a mão.
– Não
fiz. Mas eu gostaria de fazer. – ele falou timidamente.
Danilo
ficou curioso.
– O que é?
– Não vou
falar.
– É
safadeza?
– Não é.
– Então
fala, Benício.
– Não
quero falar.
– É
safadeza!
Danilo riu
e, com os ombros, deu alguns empurrõezinhos em Benício.
– Por que
você só pensa em putaria, Dan?
– Porque
é bom.
Benício
suspirou e virou o rosto. Danilo era dois anos mais velho do que ele e algumas
décadas mais experiente. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo até que
Danilo resolveu arriscar:
– Quem é
o cara que você gosta? – ele falou quase sussurrando.
Benício
engoliu em seco. Como ela sabe disso?
Não esperava pela pergunta. Obviamente, não sabia o que responder.
– Somos
amigos, Ben. Não precisa ficar sem jeito.
– Não
estou sem jeito.
Danilo colocou
o braço sobre os ombros do amigo. O gesto deixou Benício constrangido.
– Se
alguém chegar e nos ver aqui sozinhos... Sei lá, pode ficar estranho. – ele
falou, tropeçando nas palavras.
– Eu não
acho estranho. – retrucou Danilo. – Você é meu amigo. E não me importo com a
opinião dos outros.
– Eu não
sou desencanado como você, Dan.
– Eu sei.
Danilo
olhou para Benício e esboçou um sorriso. Seu amigo era dois anos mais novo do
que ele e algumas décadas mais tímido. E como seus olhos permaneciam sobre ele,
Danilo sabia que Benício estava à beira de um colapso.
– Vamos
entrar, né?
– Por
quê? – Danilo perguntou um tanto malicioso.
Benício
sentiu a mão de Danilo sobre a sua. O corpo estremeceu. O toque durou apenas alguns
segundos, mas para ele pareceu uma semana inteira.
– Eu vou
entrar. – Benício falou, levantando-se rapidamente e ofegante. Teve medo. Não quis saber o que aconteceria em seguida. Sentiu-se covarde, mas não queria arriscar. Não queria sofrer. Após quase
tropeçar nos degraus da escada, ele passou pela porta apressado.
Danilo
sorriu mais uma vez, com o mesmo sorriso daquela noite. Seu sentimento por
Benício era fraternal e simultaneamente passional. Amava-o como irmão acima de
qualquer outra coisa, mas não escondia de si mesmo que havia outros
sentimentos. Embora não conseguisse compreender, tais emoções não lhe
confundiam, nem mesmo o incomodavam. Gostava de estar com ele e rir de suas
trapalhadas. Havia uma liberdade mútua que os mantinha conectados, sem
necessidade de omissões ou formalidades. Embora Benício guardasse alguns segredos,
Danilo sabia que eles se conheciam muito bem. Eram parceiros, amigos de
verdade. Se havia algo além de amizade – e não restava dúvida de que sim – isso
apenas fortalecia um sentimento que era bonito, algo que transcendia o físico e
alcançava o campo invisível da alma.
Alguns
ruídos fizeram Danilo voltar para a sua realidade. Eram passos apressados de
alguns enfermeiros. Ele sentiu o coração acelerar e os joelhos começaram a tremer.
A movimentação estava acontecendo no quarto dezesseis. A enfermeira Mariana saiu
do quarto e caminhou ao encontro dele. O desespero foi inevitável. Mamãe! Danilo correu.
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