sábado, 15 de junho de 2013

Capítulo 4. "Algo teria acontecido?"

Passar a noite em uma enfermaria, abarrotada de cardíacos, hipertensos ou diabéticos, parecia uma pequena dose do inferno. Os sons de gemidos e pigarros, acompanhado de esporádicos espasmos e ataques, não deixavam Danilo pregar o olho. Sentado em uma cadeira desconfortável, ele observava Jaqueline, que embora dormisse tranquilamente, não estava em condições superiores aos demais pacientes. Sua mãe convivia diariamente com a possibilidade de, após um segundo qualquer, seu coração não mais bater. Sem dúvida, ela não era a única. Todos os dias, milhares de pessoas com problemas cardiovasculares chegavam aos hospitais. Muitos destes não voltavam para casa.
Danilo afastou os pensamentos negativos e tentou encontrar uma posição que lhe agradasse. Desistiu logo em seguida. Olhou para o relógio. 2h10. O remédio de Jaqueline estava dez minutos atrasado. Danilo murmurou alguma coisa e saiu em direção ao balcão da enfermaria. No corredor, encontrou a enfermeira plantonista que, para seu espanto, logo pediu desculpas pelo atraso e se demonstrou sinceramente solícita. As madrugadas em hospitais públicos não costumavam ser regradas a gentilezas e boa-vontade. Uma atitude diligente, portanto, não passaria despercebida. A beleza da jovem enfermeira também surpreendeu Danilo, que após ler o nome bordado no jaleco, agradeceu-a de modo gentil. Mariana respondeu com um leve sorriso e entrou no quarto, empurrando um carrinho cheio de seringas, agulhas e outros equipamentos de trabalho.
Danilo respirou fundo e preferiu não acompanha-la. Decidiu deixar sua mãe aos cuidados de Mariana. Estava cansado e queria passar alguns minutos sem ter que ouvir os tantos murmúrios que vinham dos leitos. Ele caminhou até o final da enfermaria e se sentou na mesma cadeira que estivera horas atrás, na companhia de Benício. Pensou no velho amigo e isso lhe trouxe tranquilidade. Ao passar a mão no cabelo, ele sentiu mais uma vez o toque de Benício, consolando-o, tratando-o, de um jeito que ele fazia muito bem. A lembrança lhe pareceu agradável. Benício. Quem mais lhe fazia tão bem quanto ele? Danilo sorriu. Sentiu-se com dezesseis anos novamente, em certa noite, na varanda da sua casa.
– Por que você está aqui fora? – Danilo perguntou.
Benício, que estava sentado na escada, olhou para ele e deu de ombros.
– Você sabe que eu não gosto dessa brincadeira.
– Ben, você é o único que não gosta. É divertido.
– Eu não acho divertido. – assegurou. – Ficar vendo uma garrafa rodar pra depois beijar alguém? Ah, não! Isso parece desespero.
– Você é muito certinho, Benício.
– Você que pensa.
Danilo se sentou ao lado dele e cruzou os braços, fazendo cara de surpresa. Esperou Benício falar alguma coisa.
– Você e Malu pensam que sabem tudo sobre mim.
– E não sabemos?
– Não tudo.
– Então diz aí. Surpreenda! O que eu não sei sobre você?
Danilo duvidava que houvesse algo que ele não soubesse sobre o amigo. Benício costumava ser muito previsível, mesmo quando tentava surpreender. Se havia algum segredo, certamente ele fazia um esforço enorme para não deixar revelar. A sinceridade de Benício era uma admirável raridade.
– Ninguém é uma coisa apenas, Danilo.
– O que você está dizendo?
– Estou dizendo que não sou todo certinho, oras.
– Não é o que parece. Que loucura você já fez? – Danilo o desafiou.
Benício colocou os cotovelos sobre a perna e apoiou o queixo com a mão.
– Não fiz. Mas eu gostaria de fazer. – ele falou timidamente.
Danilo ficou curioso.
– O que é?
– Não vou falar.
– É safadeza?
– Não é.
– Então fala, Benício.
– Não quero falar.
– É safadeza!
Danilo riu e, com os ombros, deu alguns empurrõezinhos em Benício.
– Por que você só pensa em putaria, Dan?
– Porque é bom.
Benício suspirou e virou o rosto. Danilo era dois anos mais velho do que ele e algumas décadas mais experiente. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo até que Danilo resolveu arriscar:
– Quem é o cara que você gosta? – ele falou quase sussurrando.
Benício engoliu em seco. Como ela sabe disso? Não esperava pela pergunta. Obviamente, não sabia o que responder.
– Somos amigos, Ben. Não precisa ficar sem jeito.
– Não estou sem jeito.
Danilo colocou o braço sobre os ombros do amigo. O gesto deixou Benício constrangido.
– Se alguém chegar e nos ver aqui sozinhos... Sei lá, pode ficar estranho. – ele falou, tropeçando nas palavras.
– Eu não acho estranho. – retrucou Danilo. – Você é meu amigo. E não me importo com a opinião dos outros.
– Eu não sou desencanado como você, Dan.
– Eu sei.
Danilo olhou para Benício e esboçou um sorriso. Seu amigo era dois anos mais novo do que ele e algumas décadas mais tímido. E como seus olhos permaneciam sobre ele, Danilo sabia que Benício estava à beira de um colapso.
– Vamos entrar, né?
– Por quê? – Danilo perguntou um tanto malicioso.
Benício sentiu a mão de Danilo sobre a sua. O corpo estremeceu. O toque durou apenas alguns segundos, mas para ele pareceu uma semana inteira.
– Eu vou entrar. – Benício falou, levantando-se rapidamente e ofegante. Teve medo. Não quis  saber o que aconteceria em seguida. Sentiu-se covarde, mas não queria arriscar. Não queria sofrer. Após quase tropeçar nos degraus da escada, ele passou pela porta apressado. 
                      
Danilo sorriu mais uma vez, com o mesmo sorriso daquela noite. Seu sentimento por Benício era fraternal e simultaneamente passional. Amava-o como irmão acima de qualquer outra coisa, mas não escondia de si mesmo que havia outros sentimentos. Embora não conseguisse compreender, tais emoções não lhe confundiam, nem mesmo o incomodavam. Gostava de estar com ele e rir de suas trapalhadas. Havia uma liberdade mútua que os mantinha conectados, sem necessidade de omissões ou formalidades. Embora Benício guardasse alguns segredos, Danilo sabia que eles se conheciam muito bem. Eram parceiros, amigos de verdade. Se havia algo além de amizade – e não restava dúvida de que sim – isso apenas fortalecia um sentimento que era bonito, algo que transcendia o físico e alcançava o campo invisível da alma.
Alguns ruídos fizeram Danilo voltar para a sua realidade. Eram passos apressados de alguns enfermeiros. Ele sentiu o coração acelerar e os joelhos começaram a tremer. A movimentação estava acontecendo no quarto dezesseis. A enfermeira Mariana saiu do quarto e caminhou ao encontro dele. O desespero foi inevitável. Mamãe! Danilo correu.


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