Danilo saiu em disparada pelo
corredor do hospital, ávido para chegar à enfermaria. Embora tivesse recebido
boas notícias no meio do caminho, ele não sossegaria até confirmar que tudo
estava bem. Benício e Maria Luiza vinham logo atrás, caminhando a passos
rápidos, tentando acompanhar o amigo. De longe eles avistaram Alan, que parecia
estar muito à vontade, trocando risadas com uma das enfermeiras. Os dois
trocaram olhares preocupados. Pela reação de Danilo, havia uma grande chance do
lugar pegar fogo.
– Como está a mamãe? – Danilo
perguntou ofegante, um tanto ríspido.
Alan olhou de esguelha para o
irmão e voltou a conversar com a enfermeira.
– Não é possível, Alan. Você não
tem noção das coisas.
Percebendo a tensão, a enfermeira
saiu discretamente. Benício e Maria Luiza já estavam próximos e cumprimentaram
Alan apenas com um gesto.
– Como é?
– Você não tem noção das coisas.
– Danilo repetiu dando ênfase a cada palavra. – Nossa mãe poderia ter morrido e
você age normalmente?
– O que você quer que eu faça?
– Pensar um pouco menos em você.
Benício colocou a mão sobre o
ombro de Danilo e com os olhos pediu que ele mantivesse a calma.
– É impressão minha ou você está
me culpando? – Alan perguntou, cruzando os braços. Seus olhos não esconderam o
aborrecimento.
Danilo baixou a cabeça e enxugou
os olhos com a palma da mão.
– Esse não foi o primeiro infarto
da nossa mãe.
Alan respirou fundo e levou as
duas mãos ao rosto. Perguntou a si mesmo se Danilo o perdoaria algum dia. Não aguento mais isso, lamentou.
– Dessa vez não foi minha culpa.
– falou em sua defesa.
Danilo ficou em silêncio e
procurou um lugar para se sentar. Avistou duas cadeiras no final da enfermaria
e caminhou em direção a elas, desabando o corpo sobre a que lhe parecia menos
desconfortável. Ele colocou os cotovelos sobre os joelhos e, apoiando o rosto
com as mãos, permitiu-se chorar.
Alan olhou para Maria Luíza com
certo pesar e repassou-lhe algumas orientações feitas pelo médico da sua mãe.
Após algumas breves indicações, ele concluiu:
– Ela está no quarto dezesseis,
logo ali na frente – explicou, apontando para uma porta estreita, com uma placa
de silêncio presa à maçaneta.
Maria Luíza meneou a cabeça
positivamente.
– Voltarei mais tarde. Qualquer
coisa liguem, por favor. – pediu Alan.
Benício o tranquilizou e se
despediu com um abraço. Maria Luíza repetiu o gesto, acrescentando-lhe um beijo
no rosto. Após a saída de Alan, os dois deram as mãos e compartilharam de um mesmo
olhar inquieto. Embora concordassem que Alan fosse egoísta e muitas vezes
irresponsável, acreditavam que Danilo o penalizava demais. Se todos têm o
direito de errar, naturalmente temos o dever de não negar esse direito a
alguém. Alan havia cometido um erro grave, sem dúvida alguma. Mas ele não
poderia ser culpado pelo resto da vida.
– Eu vou lá fora comprar alguma
coisa pra ele comer. Vê se você consegue conversar com ele. Sei lá, tenta
acalmá-lo um pouco. Você é bom nisso. – falou Maria Luíza, tentando esboçar um
sorriso.
Benício concordou e a beijou no
rosto. Após beijá-lo também, ela saiu e despareceu pelo corredor. O rapaz
soltou o ar lentamente, sentindo um aperto no coração. A instabilidade e
efemeridade da vida sempre o assustavam.
Aproximando-se
de Danilo, Benício puxou uma cadeira de plástico, que parecia estar ali desde a
fundação do hospital, e fez um esforço para se sentir acomodado sobre ela.
Danilo continuava com a cabeça repousada sobre as duas mãos. Estava em silêncio
e não parecia chorar. Benício passou o braço sobre os ombros do amigo,
abraçando-o na tentativa de acalentá-lo. Sem mudar de posição, Danilo falou com
a voz abafada:
– Foi o
terceiro infarto, Ben. Três infartos em menos de quatro anos. Como vai ser a
vida dela a partir de agora?
Benício o
abraçou ainda mais forte.
– A tia
Juliana é uma mulher guerreira, cheia de fé. Não se desespere, meu amigo. Ela
vai superar tudo isso.
Danilo
levantou o rosto e reclinou-se sobre o encosto da cadeira.
Sua expressão mudou de tristeza para raiva.
– Isso é
coisa do Alan. Parece que ele adora irritar a nossa mãe.
Benício
suspirou. Era um assunto delicado.
– Dan,
você não pode continuar culpando o seu irmão. – ele falou com o máximo de
suavidade que conseguiu. – O Alan errou da primeira vez e errou muito feio.
Todos nós sabemos disso. Mas já está na hora de você perdoá-lo.
Danilo
começou a balançar as pernas freneticamente. Aquela conversa sempre o deixava
nervoso.
– Eu já
falei que não consigo, Ben. O Alan sempre foi um inconsequente, um garoto
mimado. Mas maltratar a nossa mãe, agir de maneira grosseira, mesmo sabendo que
ela estava doente? Ele passou de todos os limites.
– Ele
sabe disso. Ele já aprendeu a lição, Dan.
– Não é o
que parece. – Danilo intensificou a voz. – Eu estou nesse hospital mais uma
vez. Nós estamos aqui mais uma vez. Será mesmo que ele aprendeu?
Benício
pousou a mão sobre o joelho de Danilo e procurou palavras verdadeiras, mas que
não soassem agressivas.
– Essa mágoa
está fazendo muito mal a você. Esqueça essa história, Dan. Você não é o tipo de
pessoa que guarda mágoa. Não combina contigo.
De
sobressalto, Danilo ficou em pé e seu rosto enrubesceu. Virando-se para
Benício, ele externalizou o que havia guardado durante anos.
– Eu vi a
minha mãe jogada no chão da sala, Benício, sufocando de dor e sem fôlego para chamar
ajuda. Eu pensei que iria perdê-la. Era a minha mãe, cara, morrendo na minha
frente. Eu nunca vou esquecer aquela noite. E eu não consigo deixar de culpa-lo.
– Danilo voltou a sentar e mais uma vez apoiou a cabeça sobre as mãos. – Ele
gritou com a nossa mãe por causa de uma menina idiota, Ben. Por causa de uma
pirralha. Eu sei que também namoro um monte de menina fútil, mas eu jamais
machucaria a minha mãe. O Danilo falou coisas horríveis e ainda levantou o
braço pra ela. Se eu não estivesse lá, ele teria batido na minha mãe. E a merda
teria sido completa... – A voz de Danilo mudou e ele não conteve o choro. – Não
vou perdoá-lo, Ben. Eu não consigo fazer isso.
Benício
escolheu ficar calado. De maneira involuntária, ele passou a mão sobre o cabelo
de Danilo e repetiu o gesto diversas vezes. Absorvido pela emoção do momento,
Benício nem se deu conta do quanto havia esperado por tocá-lo daquela maneira.
Já não bastava o amor fraternal de Danilo, nem mesmo a cumplicidade que havia
entre eles. Ele queria mais. Benício o amava em dobro a cada dia, com uma força
voraz e incontrolável. Ele esperava com grande expectativa o dia em que Danilo
seria seu. Ele era seu amor mais antigo, o prazer mais cobiçado, o toque mais
esperado. Acima de tudo, Danilo era a dor mais pulsante, que se confundia com
alegria e se transformava em paixão.
Danilo
virou o rosto e olhou diretamente para os olhos de Benício, esboçando um leve
sorriso. Um frio percorreu o corpo de Benício, que não conseguiu retribuir o
olhar, nem mesmo o sorriso. Estaria louco ou Danilo havia correspondido ao
carinho? Ele está abalado. Não posso
misturar as coisas, concluiu para si mesmo. Mas Danilo continuava a encará-lo,
sem perder o sorriso tranquilo. Benício não conseguia acreditar. Também não
conseguiu evitar que sua mão abandonasse os cabelos de Danilo e caminhasse em
direção ao seu rosto. Ele acariciou delicadamente a face do amigo, que parecia
não estar minimamente incomodado. Benício estava com o coração acelerado e as
pernas trêmulas. Sua respiração ficou ofegante e sua boca estava seca. Danilo
estava ali, bem próximo e seus olhos pareciam pedir alento e consolo. Não houve
palavras, apenas o momento. Benício sofreu ao pensar que logo iria acabar.
Sofreu porque já não se imaginava sem a proximidade daquele olhar. Sofreu e
sofreu um pouco mais. Era muita felicidade para um instante apenas.
De longe,
Maria Luíza os observava. O toque. O olhar. Duas pessoas que ela amava. Uma
cena que ela não esperava assistir. Benício
e Danilo? As interrogações pareciam transbordar, escorrendo pelo seu corpo
inteiro. Ela permaneceu imóvel. Não
conseguia se mexer. Sentiu-se invadida por um sentimento diferente e
indescritível. Não era dor, nem era tristeza. Era uma sensação desconhecida. Aquele
momento durou alguns infindos segundos, até que ela conseguiu virar o corpo e
sair pelo mesmo caminho que havia feito. Caminhou pelo longo corredor, passou
pela recepção e logo se viu fora do hospital. Sentia-se sem fôlego. O ar
parecia não chegar aos seus pulmões. O sentimento continuava indecifrável, no
entanto latente. Quando a primeira lágrima escorreu, Maria Luíza não desejou conter o pranto. Então chorou.
A alguns
metros dali, alguém a admirava com olhos preocupados e com o coração compassivo.
Pensou em sair ao encontro dela, oferecer-lhe consolo, mas optou por entrar no
carro e seguir o seu caminho. Por que procurar motivos para sofrer? Maria Luíza
nunca seria sua.
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Luan,
ResponderExcluirGosto de você escrevendo. Adoro quando sinto que há alguém contando uma história pra mim... tudo torna-se crível.
Bóra escrever mais, e mais.. e mais... e mais....
*smack*